Após o Vaticano proibir a entrada de peregrinos católicos na Basílica de São Pedro para rezarem no túmulo do Apóstolo nesse sábado (24), Dom Athanasius Schneider afirmou que eles foram tratados como “leprosos perigosos” pelas autoridades vaticanas. O bispo também classificou a atitude vaticana como “um escândalo sem precedentes”. As falas foram proferidas em entrevista concedida a Michael J. Matt, editor do jornal católico americano The Remnant, no mesmo dia da peregrinação.
Questionado sobre o Vaticano ter recebido a herética “bispa” anglicana da Cantuária, muçulmanos e um movimento LGBT, mas barrar a entrada de católicos “em plena comunhão”, fiéis da Missa Tridentina, para rezarem junto ao túmulo de São Pedro, Dom Athanasius disse:
“Isso entrará para a História como um escândalo sem precedentes: católicos fiéis, que demonstraram claramente seu amor pela Igreja e pelo Papa, vieram de todas as partes do mundo — muitos trazendo seus filhos pequenos e enfrentando uma longa e árdua jornada. Havia também muitos jovens; a maioria dos peregrinos era composta por pessoas de pouca idade. Eles vieram, de fato, à casa do Pai — a Basílica de São Pedro — para rezar pelo Papa e cantar o Credo; contudo, até mesmo isso lhes foi proibido. É uma crueldade sem precedentes — uma crueldade pastoral —, justamente em um momento em que tanto se fala, cada vez mais, em “sinodalidade” e “inclusão de todos”. E, no entanto, este grupo — que simplesmente ama a Missa, tal como a amaram quase todos os Papas do último milênio, bem como os santos e os antepassados desses fiéis — é banido, tratado como se fossem leprosos perigosos. Acredito que esse escândalo precisa ser abordado, não por meio de polêmicas, mas em nome da justiça; pois a Igreja deve ser justa. Ela deve ser Mãe.”
Apesar disso, o bispo afirmou confiar na ação da Divina Providência e na intercessão de Nossa Senhora para que o coração do Santo Padre seja tocado na nova peregrinação de 2027:
“Como a Divina Providência sempre age — sendo ela a única capaz de extrair um bem maior de algo negativo ou doloroso —, creio que foi exatamente isso o que a Divina Providência realizou este ano. A casa do Pai, por assim dizer, fechou-se para os seus filhos; então, os filhos recorreram à sua Mãe, dirigindo-se à casa dela: a Basílica de Santa Maria Maior. Ali, como filhos que buscam consolo, eles choraram e suplicaram à Mãe: ‘Ouvi-nos; por favor, concedei-nos a paz da liturgia; abri, ó nossa Mãe, a porta da Basílica de São Pedro para nós no próximo ano’. E espero que Nossa Senhora, a Rainha da Paz, abra essa porta com suas mãos maternais, no próximo ano, em São Pedro.”
Bento XVI vs. Francisco
Matt também perguntou a Dom Athanasius se a forma como o Vaticano tratou os peregrinos Ecclesia Dei é a razão pela qual a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não confia na Cúria Romana e julgou necessário sagrar novos bispos ainda que não tivesse o mandato pontifício para tal. Sobre isso, respondeu o bispo:
"Começando pelo documento Traditionis Custodes, do Papa Francisco, por meio do qual ele limitou drasticamente a celebração da Missa Tradicional no mundo inteiro, afirmou que estava revogando as disposições do Papa Bento XVI (que autorizaram de modo irrestrito a Missa Tradicional) e declarou expressamente que o objetivo é que todas as pessoas ligadas à Missa Tradicional sejam trazidas de volta — com o tempo, gradualmente — ao Novus Ordo (a missa nova de Paulo VI). Ou seja: a Missa Tradicional deve morrer e ser extinta, segundo as próprias palavras de Francisco."
E complementou afirmando:
"Esse posicionamento da Santa Sé contra a tradição litúrgica da Igreja Romana fica muito bem expressa em seus atos, a começar pelo Traditionis Custodes, e foi crescendo ao ponto de, agora, de algum modo, o peso dessas disposições anti-tradicionais terem alcançado, neste ano, durante esta peregrinação, o seu ponto mais elevado, culminando na proibição até mesmo da entrada do grupo (de peregrinos) na Basílica de São Pedro. Isto é realmente uma intolerância sem precedentes no tempo da tolerância sinodal."
Deus salvará Sua Igreja apesar de Roma
Na sequência, Dom Athanasius disse ainda que Roma, que deveria ser a guardiã da Tradição "por definição", é, agora, sua maior inimiga. Mas afirmou ter esperança de que Deus intervirá para resolver a crise que a Igreja tem enfrentado:
"Esse evento certamente entrará para a História como um sinal até mesmo de desdém sobre o que é a Tradição na Igreja. Mas, como sempre ocorre durante os tempos de crise na história da Igreja, quando a crise ou heresia ou abuso chega ao seu ponto mais alto, como na Crise Ariana (séc. IV), no Século de Ferro com o papado (séc. X), no Exílio de Avignon (séc. XIV), Deus intervirá novamente, porque a Igreja está em Suas mãos. E isso inclusive nesta situação, quando parece que, em Roma — que é a Sé, a Cátedra, a Catedral da Tradição por definição —, a Tradição é banida, a ponto de impedir que crianças e jovens entrem na Basílica de São Pedro como um grupo."
E disse ainda:
"O que está ocorrendo realmente não tem precedentes e manifesta o estado do aparato atual do Vaticano: o de extinguir a liturgia tradicional. Com esse mesmo ato (do final de semana), eles demonstram desprezo e desdém para com bons católicos: crianças, famílias, adolescentes e jovens — pessoas que simplesmente amam o Papa e amam a Missa Tradicional. Elas são punidas, e isso a Igreja não pode fazer, pois a Igreja é Mãe."
Sobre isso, explicou:
"Ela não pode dizer a um de seus filhos: 'Você não é mais meu filho; vá embora! Você não tem permissão para entrar.' Não é uma mãe, e nem um pai, quem faz uma coisa dessas.
Concluindo esse tópico, declarou Dom Athanasius:
Eu acredito que, do ponto de vista humano, esse sofrimento espiritual — vivenciado por milhares de pessoas aqui em Roma, durante esta peregrinação, ao serem impedidas de entrar na Basílica de São Pedro — foi oferecido por elas, a meu ver, como um gesto de intercessão: uma intercessão filial e amorosa pelo Papa. Isso é belo; isso é autenticamente católico.
Entenda o caso
Desde 2012, grupos de católicos fiéis à Missa Tradicional realizam anualmente uma peregrinação a Roma para celebrar o Motu Proprio Summorum Pontificum do Papa Bento XVI, publicado em 7 de julho de 2007, por meio do qual o Santo Padre autorizava todos os padres do mundo a rezarem a Missa Tridentina sem que ninguém lhes pudesse opor obstáculos.
Chamada de Ad Petri Sedem, a peregrinação é composta por grupos que, no tempo do Papa João Paulo II, submeteram-se à imposição de Roma de aceitarem integralmente as decisões do Concílio Vaticano II para poderem continuar celebrando a Missa de Sempre sem correrem o risco de serem “excomungados” por isso. São os chamados grupos Ecclesia Dei.
Em 2017, porém, o Papa Francisco publicou um outro motu proprio intitulado Traditionis Custodes, no qual voltava a restringir a Missa Tridentina no intuito de, segundo o documento, conseguir extingui-la paulatinamente. Desde então, os fiéis foram proibidos de celebrar a Missa Tradicional na Basília de São Pedro em sua peregrinação anual, embora jamais tenham sido proibidos de entrar nela para rezar junto ao túmulo do Apóstolo.
O que mudou no pontificado de Leão XIV?
Em 2025, o Papa Leão XIV voltou a autorizar a realização da Missa de Sempre na Basílica de São Pedro durante a peregrinação Ad Petri Sedem, a qual foi celebrada pelo Cardeal Raymond Leo Burke. Esse parecia ser um sinal de boa-vontade do “Papa da Igreja Sinodal”, como ele próprio se refere a si mesmo. Inclusive, em nome da sinodalidade, Leão XIV recebeu, em 2026, a “bispa” anglicana da Cantuária, Sarah Mullally, no Vaticano e permitiu que ela rezasse nos túmulos de São Pedro e São Paulo e concedesse uma "bênção ecumênica" a bispos católicos na Capela Clementina, localizada na cripta da Basílica de São Pedro.
Convém lembrar também que, em 2025, Leão XIV autorizou a entrada de uma peregrinação LGBT composta por cerca de 1.400 pessoas na Basílica de São Pedro, em um ato que repercutiu como um “ato histórico” na mídia secular. Nesse mesmo ano, vale recordar, ele também ordenou a criação de uma sala de oração para muçulmanos no Vaticano, e, em 2026, houve o registro até mesmo de um sarraceno rezando para Alá dentro da Basílica de São Pedro.
Apesar de todos esses sacrilégios cometidos por Leão XIV, dessas autorizações profanas dadas pelo Santo Padre aos inimigos da Igreja, neste final de semana os peregrinos do Ad Petri Sedem foram proibidos de entrar na Basílica de São Pedro para que pudessem rezar junto ao túmulo do primeiro Papa. Ou seja: não se tratou “apenas” da mesma proibição imposta por Francisco de celebrarem na basílica dedicada a São Pedro a Missa que ele próprio levou a Roma, mas foi além, impedindo até mesmo que eles adentrassem as dependências da igreja que, hoje, talvez funcione mais como um museu do que como Casa de Deus.
E mais: a Missa, uma vez proibida de ser rezada ali, seria celebrada na Basílica de Santa Maria Maior. Contudo, originalmente prevista para ser uma Missa Pontifical (a forma mais solene de celebração do rito tridentino), também isso foi negado pelo Vaticano aos fiéis, que acabaram obrigados a assistir a uma Missa Menor.
Em resumo, assim podemos definir o pontificado de Leão XIV até o momento:
Aos inimigos, pães e peixes; aos filhos, pedras e serpentes (cf. Mt 7, 9s).
Todos são bem-vindos na “Igreja” Sinodal de Leão XIV, menos os católicos. Esta é a marca de seu pontificado.
A Igreja de Leão XIV existe para agradar o mundo, não para salvar as almas. E não há espaço para católicos nela.
Que Deus tenha piedade de nós. Viva Cristo Rei!
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