15 de October de 2026 Artigo
9 min

Qual é a história de Santa Teresa D'Ávila?

Descubra como a família de Santa Teresa se estabeleceu em Ávila e acompanhe os passos da jovem carmelita até o seu primeiro êxtase místico.

Yago Portella

Yago Portella

Redação CDB


Hoje, 15 de outubro, a Igreja celebra Santa Teresa D'Ávila, virgem e Doutora da Igreja. Conheça sua história.

Santa Teresa de Jesus nasceu em 28 de março de 1515 na cidade de Ávila, na Espanha – razão pela qual ficou também conhecida como Santa Teresa D’Ávila.

Muitos talvez não saibam, mas Santa Teresa descendia, pelo lado paterno, de uma família judia. Contudo, ao contrário do que se costuma ler na internet, o pai dela nunca foi judeu, mas sim o seu avô, Juan Sánchez de Toledo.

O avô judeu de Santa Teresa

Por volta da década de 1440, o rico comerciante de tecidos Juan Sánchez se converteu formalmente do judaísmo ao catolicismo. Em 1469, ele se casou com Inés de Cepeda, uma mulher católica e de família católica, oriunda da cidade de Tordesillas. Curiosamente, esse foi o mesmo ano em que Isabel de Castela (Serva de Deus e, em breve, santa canonizada, se Deus quiser) e Fernando de Aragão, os Reis Católicos, também contraíram núpcias.

Dois anos à frente, em 1471, nasceu Alonso Sánchez de Cepeda, filho do casal e futuro pai de Santa Teresa. Ele era plenamente cristão e foi batizado na Igreja.

O fato de Alonso não poder ser considerado um judeu de sangue, mesmo que seu pai o fosse, decorre da própria prática judaica: para eles, uma criança só pode ser considerada um judeu de nascença se a sua mãe for judia. Como, porém, Inés e toda a sua família sempre foram católicos, isso não se aplicava a ele.

Apesar da conversão, em 1485 Juan foi formalmente acusado e condenado pela Santa Inquisição Espanhola por praticar secretamente o judaísmo. Diante disso, ele participou de uma procissão pública em penitência por seu crime e foi perdoado.

A expulsão dos judeus

Em 2 de janeiro de 1492, os Reis Católicos retomaram Granada das garras dos sarracenos, pondo fim a sete séculos de dominação islâmica na Península Ibérica e encerrando a Reconquista iniciada por Don Pelayo das Astúrias em 718 na milagrosa Batalha de Covadonga.

Também nesse ano, em 31 de março, Isabel e Fernando assinaram o Decreto de Alhambra, determinando a conversão ou expulsão de todos os judeus dos reinos de Castela e Aragão, para a honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo e para o bem do povo espanhol. Coincidência ou não, 1492 é precisamente o ano em que tem início o Século de Ouro Espanhol, que foi o período de maior glória da Espanha, na qual ela se tornou o império mais poderoso da Terra e alcançou o seu ápice cultural. E foi justamente na época do Decreto de Alhambra que Juan se mudou com a família para Ávila, onde os filhos adotaram o sobrenome da mãe por conta da origem judaica do nome Sánchez.

A infância de Santa Teresa

Voltando ao século XVI, o nascimento de Santa Teresa ocorre em meio a um mundo em transformação. Pelo lado positivo, Portugal e Espanha haviam descoberto a América e estavam trazendo a luz da verdadeira Religião aos povos pagãos que aqui viviam. Pelo lado negativo, porém, vivia-se o período do Renascimento do paganismo e do cisma herético de Lutero, também conhecido como Revolução Protestante.

Pois bem, Santa Teresa é a terceira de dez filhos de Alonso Cepeda, fruto de suas segundas núpcias, contraídas após o falecimento de sua primeira esposa. Ela foi batizada na Igreja de São João Batista, em Ávila.

Um fato curioso de sua infância é que, certa vez, ela e um de seus irmãos mais novos decidiram fugir de casa para evangelizar os muçulmanos em além-mar e morrerem mártires. Um de seus tios, porém, flagrou-os fugindo de Ávila e os levou de volta para casa.

A juventude de Santa Teresa

Quando tinha por volta de seus 13 anos, Santa Teresa perdeu a mãe, vítima de uma doença que avançou rapidamente. Isso fez a jovenzinha sofrer muito, e ela rezou pedindo à Virgem Maria que, dali em diante, a tomasse por sua filha.

Apesar, porém, da perda materna, Santa Teresa era muito amiga de seu pai, novamente viúvo agora, e foi justamente a piedade de Alonso um dos fatores decisivos para a edificação de sua Fé, pois ela sempre o via rezando e se confessando. Além dele, porém, também houve um tio dela que lhe serviu de inspiração para caminhar pela via da santidade, pois, certa monta, chegou a vender a maior parte dos seus bens para viver apenas com o essencial, dando um belíssimo exemplo à sobrinha de busca pela radicalidade do Evangelho.

Os estudos no mosteiro agostiniano

Ao 16 anos, Santa Teresa passou a estudar como interna no mosteiro das monjas agostinianas, ligado à Igreja de Santa Maria das Graças, em Ávila – mesmo colégio no qual a então rainha de Castela estudara em sua mocidade.

Um ano e meio passado, todavia, a santa ficou muito doente, acamada, e o pai a retirou do mosteiro para que ela estudasse em casa.

O distanciamento de Jesus

Embora tenha sempre sido uma moça de Missa e Rosário diários, ao sair do mosteiro, Santa Teresa começou a receber muitos amigos em casa, e essas amizades a levaram a desfocar um pouco das coisas do Alto. Em vez, por exemplo, de ler as vidas dos santos – algo que sempre fizera –, agora ela lia as novelas de cavalaria que falavam sobre as donzelas à espera dos bravos cavaleiros que as desposariam, e começou a se deixar levar por isso.

Sendo bela e simpática, Santa Teresa atraía já os olhares de alguns rapazes, e ela começou a gostar disso, bem como de perceber que era correspondida no jogo de interesses românticos por quem ela também se interessava.

Em meio a isso, porém, no ano de 1534 – mesmo ano em que Santo Inácio funda a Companhia de Jesus e que Henrique VIII promove o cisma anglicano –, a santa se dá conta de que estava se distanciando de Jesus. Por conta disso, ela faz um retiro espiritual no intuito de reordenar a sua vida, e, após ele, já não mais se interessa tanto pelos romances de que falam suas amigas, mas passa, em vez disso, a nutrir um sincero desejo por entrar para o convento.

Santa Teresa ingressa no carmelo

No ano seguinte, após meses de discernimento interno, Santa Teresa comunica ao seu pai o desejo de ingressar no Mosteiro Carmelita da Encarnação, que ficava na própria cidade de Ávila. Ele, porém, opõe-se e diz que ela deve se casar. Entretanto, em dado momento, Alonso acaba cedendo e permite que a filha se torne freira.

Agora um fato interessante: naquela época, havia o costume de que mulheres nobres pudessem ter não apenas a sua cela, mas uma antecâmara, um fogareiro e empregadas que a servissem dentro do convento. E Alonso, que havia comprado um título de falsa nobreza para si, proporcionou todas as mordomias possíveis à filha no carmelo.

A saúde frágil de Santa Teresa

Aos 23 anos, Santa Teresa sofre de uma doença muito grave que paralisa parte de seu corpo. Com isso, a superiora do carmelo orienta seu pai a retirá-la de lá para que possa se tratar, e ela vai para a casa de sua irmã mais velha, casada, a qual cuida dela durante a convalescênça.

Nesse ínterim, um dos tios da santa a visita e lhe dá de presente um livro chamado “O Terceiro Abecedário Espiritual”, e é a partir daí que ela passa a ter uma vida ainda mais intensa de oração, pois passa a distinguir as orações mental, vocal, contemplativa, de quietude, e aprende um roteiro de oração para se guiar.

Em 1539 ela retorna ao convento, mas novamente cai enferma e chega a ficar em coma por quatro dias. Para piorar, após recobrar a consciência, ela perde a capacidade de andar. E isso se prolonga dos 24 aos 27 anos, com idas e vindas do carmelo, passando de casa em casa para que os irmãos se revezassem nos cuidados dela.

Findado esse período, embora tivesse, ainda, a saúde debilitada, Santa Teresa volta em definitivo, em 1542, ao convento. E, no ano seguinte, aos 28 anos, ela perde o pai.

O êxtase místico de Santa Teresa

Onze anos se passam até que Santa Teresa comece a finalmente conseguir rezar bem. Nesse momento, ela também corta diversas amizades com outras freiras que não a aproximam de Deus. Mas é em 1554 que ela passa pelo grande ponto de virada em sua vida.

Certo dia, quando conta já seus 39 anos, Santa Teresa se sente atraída a contemplar uma imagem de Jesus flagelado que havia no convento. Pois bem, se, no decorrer dos anos, ela buscou cada vez mais se afastar daquilo que a distanciava de Cristo e mergulhar mais profundamente na vida de oração, este é o momento em que Deus escolheu corresponder aos passos dados por ela e ir ao seu encontro.

Ao parar para contemplar a imagem de Jesus flagelado, Santa Teresa é tomada por um amor tão grande a Nosso Senhor, às Suas Santas Chagas e à Sua Paixão que ela entra em êxtase espiritual. Esta é a primeira experiência mística de sua vida e o momento que marca a sua passagem para as quartas moradas, conforme narrado na sua magnum opus “Castelo Interior”.

Convém pontuar, todavia, que, embora, para ela, o êxtase espiritual tenha sido a via utilizada por Nosso Senhor para elevar o seu grau de santidade, há santos que alcançam as últimas moradas – que se aproximam o máximo possível de Deus em vida – sem que jamais passem por experiências místicas extraordinárias. É o caso, por exemplo, de São Luís IX, cuja alma era tão unida a Cristo que ele não necessitava de visões angelicais e divinas, pois contemplava a Sagrada Face de Jesus em cada pessoa que passava por sua vida: nos pobres, nos nobres, nos doentes, nos infiéis. Mas, no caso de Santa Teresa, essa foi a forma escolhida por Nosso Senhor para alçá-la a graus mais elevados de santidade e, assim, torná-la uma das santas mais importantes da história da Igreja.

 

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