20 de July de 2026 Artigo
8 min

A Batalha de Covadonga: nasce a Reconquista

A Espanha conquistou sua segunda Copa do Mundo, mas você conhece a batalha travada há 1.300 anos que salvou a Hispânia cristã e deu início à Reconquista?

Yago Portella

Yago Portella

Redação CDB


A Espanha foi a campeã da Copa do Mundo 2026 na noite de ontem após um jogo espetacular sobre uma apática seleção argentina. E, em 2030, o país do católico Fernan Torres, autor do gol do título, sediará, junto a Portugal e Marrocos, a próxima edição do torneio, um século após a primeira vez em que foi disputado. Mas você sabia que a história que deu origem ao destino comum desses três países é muito mais antiga que isso, remontando mais de 1300 anos no passado?

Descubra agora mesmo como o Marrocos conquistou a Península Ibérica e conheça a lendária batalha que impediu o domínio completo dos sarracenos sobre a hispanidade católica.

A guerra pelo trono

Em 710, o Concílio de Toledo elegeu o Duque da Bética (atual Andaluzia), Rodrigo, como Rei Godo após a morte do monarca Vitiza. Áchilla, porém, que era filho do falecido soberano, queria o trono para si e formou uma aliança com o bispo Oppas de Sevilha para tentar alcançar o seu objetivo.

A monarquia do Reino Godo, também chamado de Hispânia, era eletiva e, desde 633, o novo monarca era sempre escolhido pela aristocracia goda, composta por bispos e nobres do reino reunidos em concílio na cidade de Toledo. Inclusive o avô de Rodrigo, Chindasvinto, fora rei também.

Ocorre, no entanto, que, insatisfeito por não suceder o pai no trono, Áchilla, junto ao bispo Oppas, buscou aliados dentre os demais nobres e também entre os árabes. Sua ideia, afinal, era reunir forças para depôr o Rei Rodrigo por meio de uma guerra civil.

Tendo desembarcado no sul da Hispânia, os mouros (árabes muçulmanos) constataram a profundidade das discórdias entre os godos e como seria frágil a resistência militar cristã. Assim, no ano seguinte, em 711, o governador do Marrocos, Muça-Ibn-Noçair, autorizou o general berbere Tarique-Ibn-Ziyâd a invadir a Península Ibérica.

O Império Islâmico conquista a Hispânia

Após cruzar o estreito que separa a África da Europa, Tarique pisa em solo hispânico. A montanha diante da qual desembarca passará a ser conhecida como Gebel-al-Tarique ("Monte de Tarique"), origem do atual nome Gibraltar. Ao tomar conhecimento da invasão, Rodrigo, que guerreava no Norte contra francos e bascos, marcha de encontro ao invasor muçulmano.

A Batalha de Guadalete se dá a 19 de julho de 711, às margens do Lago de Janda, e seu resultado selará o destino do reino cristão. Tendo derrotado o rei católico, os árabes do Norte de África avançam sobre a península.

O Reino Godo ocupava um território equivalente à praticamente a totalidade das atuais Espanha e Portugal. Apesar disso, em um período de apenas quatro anos, cai quase que inteiramente sob domínio islâmico ante as forças de Tarique. Mas quando tudo parece perdido…

Uma nova esperança surge nas montanhas

Ao Norte da Hispânia, em uma região montanhosa banhada pelo Mar Cantábrico, reúnem-se as últimas forças da península que ainda não foram aniquiladas pelas hordas maometanas. Trata-se do território das Astúrias, que, apesar de, na teoria, compor o Reino Godo, sempre agiu com distinta autonomia e jamais se submeteu por completo a Toledo. Aquela região, afinal, era governada por chefes de clãs locais e a coroa sempre a considerou uma zona de fronteira hostil. Nem os godos, nem os romanos antes deles, jamais dominaram por completo as Astúrias.

É, todavia, desse espírito guerreiro e obstinado dos asturianos que Deus se utilizará para impedir a vitória completa dos inimigos da Cruz sobre Seus filhos.

Refugiados nas Astúrias, 300 homens se reúnem em torno de um certo Pelayo, caudilho que recusa se dobrar perante a invasão muçulmana. Seria ele de origem nobre ou plebeia? Ninguém o sabe, e tampouco importa, pois o seu real valor se mostrará dali por diante.

O surgimento de um rei

Aclamado em 718 como o primeiro Rei das Astúrias, o agora Don Pelayo tem 300 cavaleiros ao seu lado para que, juntos, lutem não apenas por um território, mas pela Fé de seus pais – razão pela qual, doravante, chamá-los-ei paladinos.

Ao tomar conhecimento do que se dá no Norte, o governador islâmico Alorre decide aniquilar os últimos cristãos que ainda resistem ao domínio de Alá. Para isso, envia até lá um líder militar chamado Alkaman, o qual é acompanhado do bispo Oppas – aquele mesmo que organizou a aliança com os árabes para destronar Rodrigo através de uma guerra civil, resultando na conquista da península pelos mouros e na quase extinção do Reino Godo.

Refugiados na Santa Cueva de Nuestra Señora de Covadonga – uma gruta do Monte Auseva –, Pelayo e seus homens se alimentam apenas do mel produzido por abelhas silvestres e bebem o orvalho que escorre da parede. E é assim, e com as suas preces, que eles sobrevivem e se preparam para o inevitável confronto.

A Misericórdia Divina ditará o vencedor

Enfim chega o grande dia. À frente das tropas, Oppas tenta dissuadir a resistência católica e convencer Pelayo a se aliar com os árabes, dizendo:

“Se nem mesmo todo o exército godo conseguiu resistir ao ímpeto dos ismaelitas, como tu conseguirás te defender sozinho nessa gruta? Escuta meus conselhos e desiste dessa empreitada para que sejas muito abençoado e, através da paz que os árabes te concederão, possas desfrutar de teus entes queridos.”

O Rei das Astúrias, porém, não vacila. Pelo contrário: demonstra inabalável Fé em Nosso Senhor e em Sua Misericórdia. Afirmando que jamais terá amizade com os árabes e nem se sujeitará ao império islâmico, declara ao bispo:

“Tu não sabes que a Igreja do Senhor é como a lua, que, ainda que diminua sua forma, volta imediatamente à sua grandiosidade inicial.”

Ele, porém, vai além, dizendo as proféticas palavras:

“Temos confiança na misericórdia de Deus, que fará brotar desta pequena colina que vês a salvação da Hispânia e a restauração do exército dos godos.”

E conclui se confiando à Misericórdia Divina:

“Assim, aguardamos na misericórdia do Senhor pela restauração de Sua Igreja e de Seu povo e pela prosperidade do reino. Por isso, desprezamos essa multidão de pagãos e jamais nos misturaremos a eles.”

A Batalha de Covadonga

Ao ouvir tais palavras, o bispo se volta ao seu exército e ordena que se ponham logo a pelejar contra os católicos, porque jamais obterão aliança com eles enquanto não os passarem ao fio da espada.

Apesar de toda a bravura de Don Pelayo, é humanamente impossível que os soldados de Cristo obtenham êxito. E a razão é muito simples: enquanto o Rei das Astúrias conta com apenas 300 paladinos ao seu lado e nem um único homem a mais, as forças de Alá são da ordem de 187 mil combatentes.

Para o Senhor, porém, nada é impossível.

Quando o maquinário de guerra dos maometanos se põe a funcionar, disparando pedras contra a gruta batizada com o nome da Mãe de Deus juntamente às inúmeras flechas de seus arqueiros, o milagre acontece: tudo aquilo que se arremessa na direção do refúgio cristão se volta contra os inimigos da Cruz sem tocar nos filhos da Santa Madre Igreja.

Don Pelayo e seus paladinos, então, avançam contra os aterrorizados soldados de Alá. Ao todo, 124 mil muçulmanos são extintos, dentre os quais o general Alkaman. O bispo Oppas é preso.

Outros 63 mil árabes fogem em direção ao cume do Monte Auseba e descem apressadamente por sua encosta em direção ao território dos liebanenses. Mas ninguém pode escapar à Justiça Divina. Assim, o Senhor executa a Sua vingança contra os infiéis e, ao tremor da montanha, os maometanos são lançados no Rio Deba. Com enorme estrondo, todos são sepultados, e mesmo quase 200 anos depois ainda se veriam, quando da cheia do rio no inverno, pedaços de armas e ossos dos pagãos vencidos por Cristo e Sua Divina Mãe, pois, por mais que se prepare o cavalo para o dia da batalha, é o Senhor quem dá a vitória (cf. Pv 21, 31).

E foi assim que um homem de origem desconhecida, aclamado rei por meros 300 sobreviventes da conquista árabe na Península Ibérica, liderou a vitória impossível contra 187 mil muçulmanos na lendária batalha que deu início a uma cruzada que se estenderia pelos próximos 700 anos: a Reconquista.

“Davi respondeu: “Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do Senhor dos exércitos, do Deus das fileiras de Israel, que tu insultaste. Hoje mesmo, o Senhor te entregará nas minhas mãos. Eu vou te matar, vou cortar tua cabeça. E darei os cadáveres do exér­cito dos filisteus às aves do céu e aos animais da terra. Toda a terra saberá que há um Deus em Israel; e toda essa multidão saberá que não é com a espada nem com a lança que o Senhor triunfa, pois a batalha é do Senhor e ele vos entregou em nossas mãos!”. (1Sm 17, 45-47)

 

Leia também:

Santa Isabel de Portugal: esposa, mãe e rainha católica

Uma profecia de 700 anos: o nascimento de São João Batista

“Transmiti aquilo que recebi”: a história de Dom Lefebvre, do nascimento à sagração [Parte 1]

O que ocorre quando
você vira membro?

Membro
A partir de
R$ 5/mês

Você ajuda a financiar iniciativas de promoção da fé católica, como:

  • Construção da nova sede
  • Programa Chave Católica
  • Catequese Tradicional
  • Ação Católica
  • Aulas presenciais
  • Produção editorial
  • Filmes e séries
Torne-se membro ->