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Torne-se membro ->No artigo anterior desta série sobre Dom Marcel Lefebvre, vimos o grande trabalho evangelizador e civilizacional empreendido pelo arcebispo francês em prol do continente africano. Após passar 15 anos como o homem mais importante da Igreja desde o Atlântico até o Índico, liderando a evangelização de uma área que, hoje, equivale a dezoito países da África – e sendo o principal responsável pelo nascimento do clero africano –, ele foi chamado de volta à França pelo Papa João XXIII.
De volta ao seu país natal, onde foi designado pelo Romano Pontífice para assumir a diocese da comuna de Tulle – que contava, então, com cerca de 19 mil habitantes –, Lefebvre encontrou uma Igreja Francesa que se aproximava do movimento comunista. Sua estadia, contudo, durou pouco tempo, pois nesse mesmo ano, 1962, o bispo francês foi eleito superior geral dos espiritanos, mudando-se primeiro para Paris e, em seguida, para Roma, de onde partiria em viagens mundo afora, especialmente para a África e Europa, a fim de supervisionar as missões da congregação, que era composta por 5 mil membros divididos entre 300 dioceses.
João XXIII abre o Concílio Vaticano II
Em 11 de outubro de 1962, após “três anos de preparação laboriosa”, conforme discurso do Santo Padre naquela ocasião, João XXIII declarou aberto o Concílio Vaticano II (CVII). Ao todo, 2.448 padres conciliares estiveram presentes na primeira sessão, que durou quase dois meses.
Lembram, no primeiro artigo desta série, do bispo que ordenou Marcel Lefebvre sacerdote em 1929 e que, em 1947, já cardeal, realizou a sua sagração episcopal? Para os que não recordam, refiro-me a Dom Achille Liénart, bispo de Lille, na França. E por que isso importa?
Sob a liderança do cardeal Liénart e do arcebispo alemão Joseph Frings, que tinha como seu principal assessor teológico o padre Joseph Ratzinger, deu-se uma votação, ainda na primeira sessão do concílio, na qual 61% dos presentes optaram por rejeitar os textos que inicialmente deveriam ser debatidos nele. Esse percentual, todavia, não era suficiente para a sua rejeição formal (eram necessários 2/3 dos votos), de modo que os esquemas preparatórios precisariam ser mantidos. Contudo, por uma intervenção direta do Santo Padre, houve uma quebra de protocolo e o próprio Pontífice descartou os documentos.
Frente a esse acontecimento, alguns podem se questionar se havia algum problema nesses textos. O consenso historiográfico sobre isso é que, em suma, nos bastidores do concílio se dizia que os esquemas preparatórios eram muito similares em sua formulação aos documentos costumeiramente redigidos ao longo da história da Igreja, com condenações a erros e anátemas, o que contrariava o ideal conciliar de diálogo com o mundo. Afinal, conforme definido por João XXIII, o CVII não tinha a intenção de definir dogmas, mas de ensinar a Fé de um modo moderno para que o homem moderno pudesse entendê-la. Era, portanto, um concílio meramente pastoral, sem o peso doutrinário de concílios pregressos como o Vaticano I, Trento, Florença ou mesmo Nicéia.
Liberdade, Igualdade e Fraternidade: a Revolução na Igreja
Pelo menos dois foram os padres conciliares que assim se referiram ao que estava acontecendo em Roma:
“O Concílio Vaticano II é o 1789 da Igreja.”
Eles, porém, enxergavam de maneira totalmente distinta tal afirmação.
De um lado, o Cardeal Leo-Jozef Suenens afirmou com alegria que “O Concílio Vaticano II é o 1789 da Igreja”. Isso porque, para ele, o concílio – que ainda estava em curso – representava uma ruptura com o sistema de centralização monárquica da Igreja sob a autoridade do Papa, estabelecendo uma nova ordem onde prevaleceria a colegialidade, assim como a Revolução Francesa também rompeu com o Antigo Regime monárquico e absolutista no século XVIII.
Após o CVII, Suenens se tornaria, ainda, figura decisiva para a aprovação da assim chamada “Renovação Carismática Católica” (RCC) por Paulo VI. Apenas para contextualizar: a RCC é um movimento nascido no protestantismo pentecostal e que foi introduzido na Igreja nos anos 1960. Dedicaremos, porém, outro artigo para tratar sobre o tema. Voltemos, então, à nossa história.
Ao passo que Suenens celebrava o concílio como a “Revolução Francesa na Igreja”, Lefebvre o lamentava pelo mesmo motivo. Ora, o que é, afinal, a Revolução Francesa, senão a negação de Deus e de toda a hierarquia em nome dos princípios humanistas das pretensas liberdade, igualdade e fraternidade?
Revolução de 1962: Liberdade
Apenas para citar um exemplo da visão de Dom Lefebvre sobre o que se sucedeu em Roma naqueles anos: para ele, o CVII, por meio do documento Dignitatis Humanæ, teria contrariado o Magistério pregresso, adotando os princípios revolucionários/humanistas – e, portanto, anticatólicos – da Revolução Francesa, como a falsa liberdade religiosa, ao afirmar que:
“É, pois, manifesto que os homens de hoje desejam poder professar livremente a religião, em particular e em público; mais ainda, a liberdade religiosa é declarada direito civil na maior parte das Constituições, e solenemente reconhecida em documentos internacionais. (...) Saudando alegremente aqueles propícios sinais do nosso tempo, (...) o sagrado Concílio exorta os católicos e pede a todos os homens que considerem com muita atenção quão necessária é a liberdade religiosa, sobretudo nas actuais circunstâncias da família humana.” (Dignitatis Humanæ, §15)
Qual é, afinal, a liberdade religiosa das constituições liberais senão aquela que, em lugar de promover o catolicismo como a única Religião verdadeira, garante que todos possam expressar livremente a sua fé, seja ela qual for, privadamente e em público?
Para muitos, isso pode não parecer um problema. Contudo, de acordo com o Papa Leão XIII, em sua famosa encíclica Immortale Dei, “a liberdade ilimitada de pensar e de emitir em público os próprios pensamentos de modo algum deve ser colocada entre os direitos dos cidadãos, nem entre as coisas dignas de favor e de proteção”, pois, uma vez que “a origem do poder público deve atribuir-se a Deus, e não à multidão”, “tratar da mesma maneira as diferentes religiões não é permitido nem aos indivíduos, nem às sociedades” (Immortale Dei, §43).
Sobre esse tema da liberdade religiosa, comentou Lefebvre, em sintonia com Leão XIII, durante entrevista:
“A Igreja ensina que é permitido tolerar o erro. Ora, para a Igreja Católica, as outras religiões estão no erro. Por isso, pode-se, sim, tolerá-lo, mas nunca lhe conferir um direito natural, que significa um direito dado por Deus, pois a Igreja considera que foi Deus quem nos deu a natureza.”
Revolução de 1962: Igualdade
Um tópico fortemente combatido por Dom Lefebvre foi a colegialidade. Lembram-se que, desde sua formação como seminarista, ele era um defensor do ultramontanismo, que pregava o poder da Igreja centralizado no Papa? Pois bem, durante o CVII, ele unirá forças com o secretário do Santo Ofício, Dom Ottaviani, para resistir ao grupo liderado por Dom Liénart, o qual defende que, através da colegialidade, o Papa faz com que os bispos participem do governo universal da Igreja, compartilhando de sua infalibilidade. Para Dom Lefebvre, isto representava uma tentativa de democratização da Igreja.
Se, então, de um lado dessa guerra instaurada no CVII, tem-se um cardeal Suenens declarando seu entusiasmo por presenciar o fim da centralização do poder da Igreja na pessoa do Santo Padre, por outro lado há Dom Ottaviani afirmando que ninguém, nem mesmo um concílio, pode impôr ao Santo Padre que aceite o governo colegiado da Igreja:
“Ele recebeu sozinho, individualmente, o mandado, por Nosso Senhor, de ser a base, o fundamento da Igreja, e de ser o Pastor Universal.”
Dom Lefebvre também pensava assim. Para ele, “se há colegialidade, há igualdade”. Não obstante a ameaça que via ao papado, o bispo francês considerava, ainda, a colegialidade como uma ameaça ao poder dos demais bispos em suas próprias dioceses. Sobre isso, questionava se, quando houvesse uma conferência episcopal da França (ela, de fato, foi fundada logo após o concílio, em 1966), ele teria de votar sobre o que seria feito e, independentemente do resultado, teria de se submeter. Para Lefebvre, isto era, de fato, a Revolução Francesa na Igreja.
Revolução de 1962: Fraternidade
O terceiro aspecto que, na visão de Dom Lefebvre, trazia para a Igreja os princípios revolucionários era a nova forma de se relacionar com os protestantes que fora proposta pelo concílio. Isto porque, nas palavras de Jean Guitton, membro da Academia Francesa:
“A Igreja dizia: ‘Se se separaram de mim, pois bem, que voltem para mim. Eles é que têm um caminho a percorrer.’ Enquanto que, agora – e acho que é essa a novidade do ecumenismo que vemos neste concílio –, os católicos acham que a conversão que trará a unidade da Igreja não deve ser feita, por assim dizer, em sentido único. Nós pensamos – e isso é realmente novo –, sentimos, sabemos e proclamamos – nós, católicos –, que também temos que fazer um grande esforço em nossa Igreja para poder acolher todos os nossos irmãos separados de modo que eles se sintam livres numa Igreja realmente una.”
Enquanto isso, comenta o padre Père Philippe Béguerie, que fora membro dos espiritanos e ferrenho opositor de Dom Lefebvre, que, para o bispo francês:
“Não vemos mais os protestantes como heréticos, mas como nossos irmãos na fé, e, por pouco, não dizemos o mesmo dos muçulmanos, porque creem em Deus. Liberdade, Igualdade, Fraternidade: para Dom Lefebvre, é o demônio que entra na Igreja, e o demônio é a Revolução Francesa.”
A eleição de Paulo VI
Em 1963, ainda durante o concílio, faleceu o Papa João XXIII e os cardeais elegeram o italiano Giovanni Battista Montini para sucedê-lo. Sob o nome de Paulo VI, o novo Pontífice deu continuidade ao CVII.
Seria, inclusive, durante o seu pontificado que o pensamento de Guitton se confirmaria como sendo a nova política do Vaticano quando, após o fim do concílio, fosse inventado o rito Novus Ordo, também conhecido como “missa nova”, por meio do qual se buscaria apagar o caráter sacrifical da Santa Missa para agradar aos hereges. Mas, sobre isso, trataremos em um próximo artigo.
Leia as partes 1 e 2 desta história:
“Transmiti aquilo que recebi”: a história de Dom Lefebvre, do nascimento à sagração [Parte 1]
“Transmiti aquilo que recebi”: a história de Dom Lefebvre, o Apóstolo da África [Parte 2]
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