22 de June de 2026 Artigo
5 min

“Transmiti aquilo que recebi”: a história de Dom Lefebvre, do nascimento à sagração [Parte 1]

Quem foi Dom Marcel Lefebvre? Conheça os primeiros passos do mais famoso bispo francês do séc. XX, de sua infância à sagração episcopal por desejo de Pio XII.

Yago Portella

Yago Portella


“Tradidi quod et accepi” – ou, em português, “Transmiti aquilo que recebi”. Estas palavras de São Paulo (cf. 1Cor 11, 23) estão inscritas no túmulo de Monsenhor Marcel Lefebvre e resumem muito bem o seu episcopado.

Com a proximidade das novas sagrações episcopais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), que devem ocorrer no próximo dia 1º de julho, far-se-á, aqui, uma pequena série de artigos sobre Monsenhor Marcel Lefebvre e as históricas sagrações de 1988. Desse modo, se poderá melhor compreender a importância delas naquele tempo e hoje em face da atual situação da Santa Igreja Católica.

Quem foi o jovem Marcel Lefebvre?

Marcel Lefebvre nasceu em Tourcoing, no norte da França, em 1905, em uma família extremamente católica. Seu pai, René Lefebvre, dirigia uma pequena indústria têxtil, e sua mãe, Gabrielle Watine Lefebvre, era Superiora da Ordem Terceira de São Francisco. Juntos, tiveram oito filhos.

Além de Marcel, seu irmão mais velho, René – mesmo nome do pai –, também foi ordenado sacerdote. E, no lado feminino, três de suas irmãs se tornaram freiras. Assim, cinco filhos do casal Lefebvre consagraram suas vidas inteiramente a Deus.

Família Lefebvre, então com 6 dos 8 filhos do casal. Imagem: Society of Saint Pius X, District of the USA.

O jovem Marcel Lefebvre entrou para o Pontifício Seminário Francês de Roma em 1923. Administrado, à época, pelos padres espiritanos – membros da Congregação do Espírito Santo –, o local era um bastião da defesa da centralidade do papado na Igreja, conhecida como ultramontanismo.

Enquanto Marcel estava no seminário, o Papa Pio XI publicou, a 11 de dezembro de 1925, a sua encíclica Quas Primas, na qual defendia a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo, condenava a separação entre Igreja e Estado e estabelecia a festa de Cristo Rei. E foi nesse espírito de defesa do reinado social de Cristo, de combate ao laicismo e de promoção do ultramontanismo que, a 21 de setembro de 1929, Marcel foi ordenado sacerdote.

O seminarista Marcel Lefebvre (à frente na imagem, o segundo da direita para a esquerda) no Pontifício Seminário Francês de Roma, 1928. Imagem: FSSPX News.

O Missionário Lefebvre

Após a ordenação sacerdotal, o agora padre Marcel foi designado vigário no subúrbio de Lille, na França. Lá, evangelizou operários têxteis, ferroviários e metalúrgicos. Em seu coração, no entanto, ele sentia que o Senhor lhe chamava à outra missão.

Seu irmão René, que também era sacerdote, havia se tornado missionário no Gabão, no continente africano. De lá, escrevia-lhe cartas relatando as conversões dos habitantes locais e pedindo que fosse ajudá-lo na evangelização daquele povo.

Em 1931, Marcel foi admitido no noviciado dos padres do Espírito Santo, que tinha justamente o objetivo de evangelizar a África. Já no ano seguinte, o jovem sacerdote, imbuído do espírito missionário, foi nomeado pela congregação como professor no seminário de Libreville, no Gabão.

Ao longo de seis anos, Marcel se dedicou à formação de padres africanos, ministrando aulas de teologia e de Sagrada Escritura. À época, apenas ele e mais um sacerdote dividiam entre si o peso de administrarem sozinhos os seminários Maior e Menor, bem como um noviciado de religiosas.

Assim, já em 1934, Marcel foi feito reitor do seminário. Ele tinha apenas 28 anos à época.

Vendo a exaustão que o castigava por tamanhas responsabilidades, o bispo Dom Tardy enviou Marcel a N’Djolé. Essa região, localizada às margens do Rio Ogooué, no centro do Gabão, é, até hoje, ocupada pela segunda maior floresta tropical do planeta. À época, porém, a via terrestre era tão difícil de ser transposta que o acesso à região se dava exclusivamente de barco/balsa. Foi assim que ele deixou a reitoria do seminário.

Evangelização no Coração da África

Ao longo de sua missão evangelizadora na África, Marcel esteve à frente das missões de N’Djolé, Libreville, Donguila e Lambaréné. Por onde passava, ele pregava o Evangelho e administrava os sacramentos. Além disso, também edificou igrejas, escolas e postos de saúde.

Marcel ainda visitava aldeias afastadas, a fim de levar Cristo àqueles que nelas viviam. Conta uma senhora fiel da missão de Donguila, entrevistada para o documentário “Um Bispo na Tormenta”, que, quando ele chegava, era recepcionado com muita alegria pelos aldeões. Eles queriam falar com o padre e lhe contar sobre suas vidas.

Enquanto lá estava, Marcel atendia confissões e celebrava a Santa Missa. E, ao partir, as pessoas ficavam alegres pela sua passagem e se empenhavam em praticar mais as virtudes.

Outra fiel que teve a oportunidade de conhecê-lo recorda também as suas palavras às mulheres. Ele sempre lhes dizia para serem boas cristãs, alertava-as de que o mundo mudaria e as instruía a, apesar disso, não seguirem os bens deste mundo.

Retorno à França e Sagração Episcopal

Em 1945, ao final da II Guerra Mundial, Marcel foi chamado de volta à França. A comoção dentre os fiéis do Gabão foi tamanha que eles chegaram a protestar junto ao bispo para que deixasse o padre lá permanecer. Contudo, diante da devolutiva de que as ordens vinham da própria congregação, os fiéis, às lágrimas, resignaram-se.

Desse modo, Marcel teve de retornar à Europa, pois, lá, uma nova missão o aguardava: ele foi nomeado diretor do Escolasticado de Mortain. O seminário pertencia aos espiritanos e era localizado em Manche, na Normandia – região noroeste da França. Sua estadia, porém, durou pouco tempo.

Apenas dois anos após o seu retorno, em junho 1947, o Papa Pio XII, conhecedor de seu brilhante trabalho na África, nomeou-o Vigário Apostólico de Dakar, a capital de toda a África Ocidental Francesa. Para exercer tal função, o padre de apenas 41 anos recebeu a sagração episcopal em sua paróquia de origem, a Nossa Senhora dos Anjos, em Tourcoing, a 18 de setembro daquele mesmo ano. Desse modo, o agora Bispo Dom Marcel Lefebvre partiu novamente como missionário rumo a terras africanas...

Sobre isto, no entanto, falaremos no próximo artigo.

Até lá, se você deseja conhecer mais sobre a mentalidade e a formação dos seminaristas da FSSPX, recomendo assistir ao documentário “TRADITIO”. Em sua parte 1, ele aborda o que significa ser sacerdote, comenta sobre a trajetória do fundador Dom Lefebvre e conta a rotina de seus seminaristas.

Para assisti-lo gratuitamente, basta clicar aqui. A produção possui legendas em português, que você pode ativar no símbolo de engrenagem na lateral inferior direita da tela de vídeo.

 

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