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Torne-se membro ->No primeiro artigo desta série sobre Dom Marcel Lefebvre,abordamos a sua trajetória desde o nascimento até a sagração episcopal, aos 41 anos de idade. Nesse percurso, vimos a composição de sua família, como se deu a sua ordenação sacerdotal, o trabalho feito em seus anos de missionário na África e o retorno à França. E é a partir daqui que seguiremos.
Após ser sagrado bispo em setembro de 1947 por determinação do próprio Papa Pio XII, Dom Marcel Lefebvre partiu novamente ao continente africano. Desta vez, sua missão era no Senegal, que, à época, era, ainda, uma colônia pertencente ao Império Colonial Francês. Ele foi escolhido e enviado pelo Santo Padre como Vigário Apostólico de Dakar, que era a capital de toda a África Ocidental Francesa.
O Evangelizador de toda a África Francesa
Logo ao desembarcar, Dom Lefebvre encontrou em Dakar uma cidade profundamente muçulmana. Além disso, havia, ali, apenas uma paróquia, a Catedral de Nossa Senhora das Vitórias, e algumas capelas. Mas ele não se acovardou diante de tal cenário e, com seu intenso trabalho, foi nomeado Delegado Apostólico – ou seja, o representante da Santa Sé – para toda a África Francesa já no ano seguinte. Com isto, uma região que hoje equivale a dezoito países, e que vai desde o Marrocos até Madagascar – portanto do Oceano Atlântico ao Índico –, ficou inteiramente sob a sua jurisdição.
Através de seu empenho missionário, o bispo francês reergueu a Igreja no Senegal. Ele edificou diversas novas igrejas e escolas, e multiplicou as missões.
Um de seus grandes feitos foi a construção do Seminário Maior de Sébikotane, que fica 45 km ao leste de Dakar. Logo ao ser inaugurado, em 1951, ele já se tornou peça-chave para o surgimento e a formação das primeiras gerações de sacerdotes e bispos africanos. Até então, a maior parte do clero local era composta exclusivamente por missionários estrangeiros, e foi Dom Lefebvre o responsável por fazer nascer o clero africano nativo. Não obstante, esse seminário segue sendo, nos dias de hoje, uma das principais instituições de formação de sacerdotes de toda a África Ocidental.
O Civilizador do Senegal
Com um coração que ardia pelo surgimento de novas famílias católicas e vocações religiosas, Dom Lefebvre não hesitou em pedir ajuda a diversas congregações. Fosse para ensinar, fosse para rezar, ele queria que o máximo possível de servos de Cristo o auxiliassem na santificação daquele povo. Por isso, juntaram-se a ele maristas, dominicanos, beneditinos, carmelitas, os próprios espiritanos (congregação à qual ele pertencia), dentre tantos outros.
Com a chegada dessas congregações, houve um enorme desenvolvimento da educação, da saúde e de toda a infraestrutura social do Senegal. Graças à liderança de Dom Lefebvre, foram abertas escolas, internatos e centros de formação profissional, aumentando, assim, o acesso à educação para a população local, especialmente em áreas rurais e periféricas.
Foram estabelecidos, ainda, ambulatórios, postos de saúde, hospitais e leprosários administrados por ordens religiosas. Eles garantiram assistência médica básica e tratamento para doenças tropicais aos senegaleses em uma época onde a infraestrutura pública da colônia era muito limitada.
O Místico Dom Lefebvre
Ao ouvir os relatos de pessoas que conviveram com Dom Lefebvre na África, como irmãos, freiras, professores e até um profissional da aviação civil – conforme depoimentos do documentário "Um Bispo na Tormenta" –, vê-se que, acima de todas as suas obras supracitadas, ele era um homem que vivia imerso na oração. A sua vida era de uma profunda e constante união íntima a Nosso Senhor Jesus Cristo, e isto transbordava quando ele celebrava a Santa Missa.
Ao se aproximar o momento da consagração, via-se a Fé que ele tinha na Sagrada Eucaristia, de modo que nada o distraía daquilo. E suas missas não eram mera repetição de ritos, mas um verdadeiro calvário, onde o bispo vivia, na oração, tudo aquilo que se sucedia no altar.
O Papa Pio XII e Dom Lefebvre
Em 14 de setembro de 1955, o Papa Pio XII elevou Dakar à condição de Arquidiocese. Com isto, Dom Lefebvre se tornou o primeiro arcebispo da capital do Senegal.
Desde antes desse ato, contudo, o bispo francês viajava anualmente a Roma para relatar a situação de sua missão ao Papa Pio XII. E foi durante esse período, mais precisamente no dia 21 de abril de 1957, que o Santo Padre publicou a encíclica Fidei Donum. Por esta carta, ele solicitava aos bispos do mundo inteiro que cooperassem no envio de missionários à África para auxiliar na evangelização do continente.
O Retorno à França
Pio XII faleceu em 9 de outubro de 1958. Desde então, dezenove dias se passaram até que o cardeal italiano Angelo Giuseppe Roncalli fosse eleito Papa João XXIII.
No quarto ano de seu pontificado, o novo Pontífice convocou Dom Lefebvre a retornar à França, deixando a África sob os cuidados dos bispos que ele mesmo formou. E, especificamente em Dakar, o novo arcebispo que o sucede é Dom Hyacinthe Thiandoum. Ele foi ordenado padre pelo próprio bispo francês em 18 de abril de 1949, e veio a se tornar o primeiro cardeal senegalês da história.
Frutos da Evangelização
Após quinze anos em Dakar, os frutos do ardor missionário de Dom Lefebvre foram nítidos: um expressivo aumento nas conversões, acompanhado por milhares de batismos anuais nas regiões sob a sua jurisdição. Não obstante, ele fundou dezenas de novas dioceses, desde o Marrocos até Madagascar, fornecendo-lhes bispos nativos. Assim, tornou-se responsável por criar o clero africano.
No documentário "Um Bispo na Tormenta", conta uma irmã carmelita que conviveu com Dom Lefebvre que os seus grandes desejos eram a instalação do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo na África Francesa e a salvação das almas. Era só para isso que ele vivia. E diz também que ele escrevia inúmeros artigos para enaltecer o carmelo, atribuindo as inúmeras conversões de pagãos nas missões próximas a Fatick, uma região majoritariamente muçulmana no Senegal, à oração de cinco carmelitas que lá viviam.

Todo esse amor por Nosso Senhor Jesus Cristo, porém, assim como todo esse empenho despendido para que Cristo se tornasse conhecido, o Seu Reino fosse estabelecido no mundo e as almas fossem salvas – tudo isso entraria em choque com o clero que ele encontraria em sua terra natal. Isto porque, ao desembarcar na França em 1962, após quinze anos dedicados à evangelização da África, Dom Lefebvre se depararia com um país que mudara radicalmente desde a sua partida, bem como com uma igreja local que até mesmo simpatizava com ideais comunistas. O mundo, afinal, estava em plena Guerra Fria…
Mas, sobre isso, trataremos no próximo artigo.
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“Transmiti aquilo que recebi”: a história de Dom Lefebvre, do nascimento à sagração [Parte 1]



