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O padre Antônio de Pádua Sousa, sacerdote da Diocese de Marabá/PA, divulgou uma carta aberta na qual afirma sua fidelidade à Santa Igreja Católica e ao Romano Pontífice após ser declarado cismático e excomungado pelo bispo Dom Vital Corbellini no último dia 17. O caso segue o mesmo padrão do que ocorrido com o padre Françoá Costa, também noticiado pelo Centro Dom Bosco. Em nota, Dom Vital afirmou que o padre Antônio incorreu no delito de cisma por declarar publicamente sua adesão à Fraternidade Sacerdotal São Pio X.
Em sua carta – que você confere na íntegra logo abaixo –, o sacerdote, que completou 20 anos de ministério nessa quarta-feira (22), declarou ter a certeza de que as sanções que lhe foram impostas são nulas e inválidas, porque “retratam a injustiça de perseguir aqueles que guardam a Fé”. Para ele, isso se tornou possível porque, desde João XXIII, os inimigos internos da Igreja – sobre os quais já falava São Pio X no começo do século XX – estão em posições de poder.
Crise na Igreja
O sacerdote também afirmou que há uma crise generalizada de Fé na Igreja desencadeada pelo Concílio Vaticano II e o período pós-conciliar, que ele acusa de terem mudado a Fé Católica. Diante disso, questiona:
“Quem sou eu para corrigir um papa? Ninguém. Quem corrige um papa é outro papa. Então, temos os papas anteriores que ensinaram uma coisa e rezavam a missa de sempre; agora, ensinam outra: mudaram tudo. Ou os papas de S. Pedro a 1960 estão errados, ou esses estão, pois o ensinamento não bate. Infelizmente, sofro desde o dia em que descobri isso.”
Em outro ponto da carta, o padre disse aos fiéis que não lhes pede para que acreditem nele cegamente. Em vez disso, exortou-os a estudarem a história recente da Igreja e lerem os documentos pontifícios escritos nos últimos 200 anos, como a Mirari Vos, o Syllabus, a Immortale Dei, a Pascendi Dominici Gregis, o Juramento Antimodernista, a Quas Primas, a Mortalium Animos e a Humani Generis, dentre outros, para poderem atestar por conta própria aquilo que ele defende.
Leia, agora, o documento na íntegra:
CARTA ABERTA AOS FIÉIS CATÓLICOS - 20 ANOS DE SACERDÓCIO - "EU SEI EM QUEM ACREDITEI" 22 DE JULHO DE 2026.
PADRE ANTÔNIO DE PÁDUA
"Sei em quem acreditei e estou certo de que Ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia" (II Timóteo 1, 12).
A todos aqueles que, nos últimos dias, fizeram julgamentos precipitados, deram crédito a informações incompletas ou contribuíram para a minha exposição pública, desejo dirigir uma palavra serena.
Não guardo rancor. Rezo por todos. Contudo, a minha consciência diante de Deus obriga-me a permanecer fiel àquilo que reconheço como a Tradição imutável da Igreja Católica, recebida dos Apóstolos, conservada pelos Santos e transmitida ao longo dos séculos.
A fidelidade à Fé e a fidelidade à Igreja não podem ser separadas. Permanecer firme na Doutrina Católica de Sempre não significa abandonar a Igreja; ao contrário, significa permanecer unido àquilo que Ela sempre ensinou. Então, aos que querem a verdade, mais uma vez ratifico: sou católico, permaneço católico, por graça morrerei católico. Longe de mim cometer um só pecado que seja para perder a minha alma. E nenhum bispo ou padre pode afastar Deus de minha alma.
A alma é o bem maior que recebi de Deus e, para salvá-la, jamais deixarei de ser católico nem estarei fora da Igreja. Pelo contrário: sou católico e sofro pela fé católica. A grande maioria dos católicos nunca ouviu falar da crise na Igreja — que é uma crise de fé. A obediência é na fé e também a unidade é na fé católica, fora da qual, afirmo com os Papas, não há salvação (Extra Ecclesiam nulla salus). Como, logo, poderia eu estar fora da Igreja?
Sabemos da infiltração na Igreja! São Pio X já denunciava, na Encíclica Pascendi Dominici Gregis, que os inimigos da Igreja estavam dentro dela; e, desde o pontificado de João XXIII, eles têm lugar de destaque e agora governam muitas instâncias de poder e de decisão. Por isso, tenho a certeza — certeza que vem da fé e que partilho com milhares de católicos que já despertaram — de que essas sanções são nulas, nulas e inválidas de próprio direito e da própria natureza da Igreja, que existe para salvar almas e não condená-las ao inferno. Essas penas, na verdade, retratam a injustiça de perseguir aqueles que guardam a Fé, a Tradição, a Missa Tradicional e o Depositum Fidei. Ou seja: a fé não muda porque o mundo muda.
De novo reitero, e morrerei dizendo: não sou cismático, sedevacantista nem modernista. Sou católico, amo o Papa, rezo pelo Papa e submeto-me ao seu primado petrino.
Será que sacerdotes formados na santidade, no tomismo, na disciplina mais dura, na ascese, na contrição dos próprios pecados, no jejum e na penitência — que têm calos nos joelhos e uma retidão moral que nunca vi num padre de missa nova — estarão assim tão errados? Temos um precedente: São Paulo resistiu a São Pedro face a face (Gálatas 2, 11), repreendendo-o publicamente porque a sua conduta não se conformava à verdade do Evangelho (Gálatas 2, 14). Dessa passagem colhe São Tomás de Aquino o princípio de que, havendo perigo para a fé, é lícito aos súditos — e, por vezes, é dever — corrigir publicamente os prelados (Suma Teológica, II-II, q. 33, a. 4). Quem sou eu para corrigir um papa? Ninguém. Quem corrige um papa é outro papa. Então, temos os papas anteriores que ensinaram uma coisa e rezavam a missa de sempre; agora, ensinam outra: mudaram tudo. Ou os papas de S. Pedro a 1960 estão errados, ou esses estão, pois o ensinamento não bate. Infelizmente, sofro desde o dia em que descobri isso. Mudaram a fé católica! O Concílio Vaticano II e o período pós-conciliar são os responsáveis por tamanha mudança e confusão. Faz-se um Concílio para esclarecer e não para confundir. O problema é que o elefante no meio da sala ninguém vê, porque está com o rosto nele. Por isso, muitos dizem que não há crise — como o peixe dentro da água, que não percebe a água. A bússola é sempre a Tradição da Igreja; ela é a estrela que guia a Igreja na história — aquilo que, no dizer de São Vicente de Lérins, foi crido "em toda parte, sempre e por todos" (quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est — Commonitorium, 2). A verdade há de prevalecer à custa dos sofrimentos de muitos.
Assim, quem guarda a fé, a oração, a disciplina, os sacramentos, a Missa e a doutrina sem desvios doutrinários — como o ecumenismo (Unitatis Redintegratio), a sinodalidade, a liberdade religiosa (Dignitatis Humanae), a alteração dos fins do matrimônio (Gaudium et Spes, 47-52), a ideia de salvação fora da Igreja (Lumen Gentium, 8 e 16), a afirmação de que aos muçulmanos toca o mesmo céu (Lumen Gentium, 16; Nostra Aetate, 3), de que os judeus são nossos "irmãos mais velhos" (Sinagoga de Roma, em 1986), de que com os luteranos já estamos dentro do mesmo Corpo Místico (Lumen Gentium, 15) — ou ainda ver uma bispa anglicana ser recebida com tapete vermelho e ministrar bênçãos diante do túmulo de São Pedro... Como não é isto uma crise generalizada de fé e de doutrina, cujo fulcro central está nas próprias autoridades, que não ensinam a doutrina de sempre porque simplesmente não a querem, mas ensinam novidades do Concílio já previamente condenadas pelo Magistério autêntico e constante da Igreja? Como há tanta maldade e cegueira a impedir o católico médio de ver, com os próprios olhos, a verdade?
E aqui é preciso distinguir, com precisão, aquilo que de propósito se procura confundir. Conferir a consagração episcopal sem mandato pontifício é punido por um cânon próprio e delimitado — o cânon 1387 do Código de 1983 (antigo cânon 1382, conservado pela reforma do Livro VI de 2021) —, que atinge tão somente duas categorias de pessoas: o bispo que consagra e o que é consagrado, e a mais ninguém. É um delito de sujeito qualificado: não alcança, porque não pode alcançar, os sacerdotes que assistem, os fiéis que rezam, os seminaristas que servem ao altar, nem as centenas de milhares de católicos que frequentam as capelas da Tradição. Coisa inteiramente diversa é o cisma, que o cânon 751 define como a recusa de submissão ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos. Ora, eu não recuso a submissão ao Papa nem nego o seu primado — antes o professo, amo-o e por ele rezo na liturgia da missa. Juntar de indústria o cânon da sagração ao cânon do cisma, para estender a uma multidão de fiéis um rótulo vil que o próprio tipo penal não menciona nem tipifica, é artifício ideológico e não direito, nem sequer justiça. Usam do medo e do terror porque sabem que, no debate sereno da doutrina, perderiam — pois foram eles que abandonaram a fé de sempre por invenções modernas que não estão dando certo. Por isso atacam a Tradição espalhando o terror e o medo aos pequeninos. Um dia vão pagar! No entanto, os de alma pura buscam a verdade e não se deixam vencer pelo medo, "porque o perfeito amor lança fora o medo" (I João 4, 18). O verdadeiro cisma, esse sim, está sendo feito diariamente por quem nega a doutrina, a liturgia e a fé de sempre, substituindo-as por um simulacro de fé e de verdade.
É o tempo da confusão — de uma confusão doutrinal sem igual; e o problema é que quem nela nasceu habitua-se com facilidade e deixa-se levar em sua vida religiosa, sem se preocupar com as consequências dos próprios atos. A história atesta que, no tempo de Nero, a perseguição vinha de fora da Igreja; nestes últimos tempos, ela vem de dentro — e parece pior. A autoridade que deveria dar o pão, como um pai, põe o escorpião na mão do filho (cf. Lucas 11, 11-13). Ora, quando o pai manda ao filho o que não pode ser mandado — cometer um erro ou algo contrário à fé —, tal ordem não deve ser obedecida, pois importa antes obedecer a Nosso Senhor do que a vontades humanas. Não se obedece àquilo que não dá glória a Deus e não salva as almas! Nosso Senhor disse a Pedro: "Retira-te, Satanás!... porque não compreendes as coisas de Deus, mas as dos homens" (cf. Mateus 16, 23). Este é o crivo da história hodierna: você obedece a uma autoridade quando ela lhe pede para agir contra a fé ou crer em novidades contrárias à doutrina? Ora, desobedecer, aqui, é dever e obedecer é ser cúmplice! "Importa antes obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5, 29). E São Paulo acrescenta: "Ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu, vos anuncie outro evangelho além do que já vos anunciamos, seja anátema" (Gálatas 1, 8).
"Os dias são maus", exorta o Apóstolo das gentes (cf. Efésios 5, 16).
Por outro lado, lamento profundamente que a minha decisão tenha sido apresentada de maneira a favorecer incompreensões, julgamentos e até difamações. Sabemos quem está por detrás disso! Ou se reconhece a crise instalada no templo de Deus há 60 anos, ou se age como se nada estivesse acontecendo, deixando que modernistas, liberais, maçons e todas as redes de corrupção prossigam na autodemolição da Igreja — expressão que o próprio Paulo VI empregou (Alocução ao Seminário Lombardo, 7 de dezembro de 1968). A Igreja é a mesma, mas está desfigurada. Com a minha honra não me preocupo: quem me justifica é Deus. E a fé imutável que imperou no orbe católico até 1965 e que fora escondida, eu, por graça imerecida, encontrei. Preocupo-me com a salvação das almas — isto sim é o que interessa! O resto é palha destinada à geena (cf. Mateus 3, 12).
Por isso sofro: não por perder prestígio humano, mas porque amo profundamente a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. E sou acusado justamente daquilo em que mais me esforcei ao longo de 20 anos de sacerdócio, que celebro hoje, dia de Santa Maria Madalena, minha padroeira. Há 20 anos, o óleo sacerdotal — por meio de Dom José, este sim pastor de verdade, e não só de boca — ungiu as minhas mãos e, pela imposição de suas mãos santas e pela oração consecratória, fez-me sacerdote do Altíssimo. Sou sacerdote para oferecer o Sacrifício da Missa, tal como ensina a Sessão XXII do Concílio Dogmático Ecumênico de Trento, e não para ser tão somente um cooperador da ordem episcopal ou um presbítero que preside a comunidade (cf. Lumen Gentium, 28) — desvio público e notório da natureza e da função do sacerdócio católico, operado no Concílio Vaticano II.
Amo o meu sacerdócio, a Missa de sempre e Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Igreja Católica Apostólica Romana. Se esse amor me conduz à incompreensão, aceito esse sofrimento de bom grado: ofereço-o no Calvário, na Missa de sempre e ponho-me nas mãos de Deus. Ser sacerdote é oferecer o sacrifício, unir-me a Cristo no Calvário; foi isto que aprendi com a Tradição que a FSSPX guarda.
No mais, o tempo passa, as paixões humanas se acalmam, mas a verdade permanece. Stat Crux dum volvitur orbis — "A cruz permanece de pé enquanto o mundo gira" (lema dos Cartuxos). Gire o mundo — a Tradição da Igreja, como rocha firme, permanecerá de pé.
Não peço que ninguém concorde comigo sem antes estudar e ver os fatos. Peço apenas que se faça o seguinte exercício mental: como era a Igreja antes do Concílio Vaticano II? Como era o sacerdócio, a Missa, as famílias, a fé? Como era a fé de nossos avós? E agora, tudo mudado, alterado em nome de uma união com protestantes, maçons, judeus, muçulmanos e o homem moderno?
Dirijo-me aos fiéis de alma simples, aos que ainda guardam a intenção pura de amar a Deus, e peço: procurem conhecer, com honestidade e humildade, a história recente da Igreja, dos últimos 100 anos para cá. Leiam as encíclicas e demais documentos dos Romanos Pontífices que condenaram o liberalismo e o modernismo: a Mirari Vos, de Gregório XVI (1832); a Quanta Cura e o Sílabo (Syllabus), de Pio IX (1864), em defesa dos direitos de Deus e da sua Igreja sobre a ordem social, contra o liberalismo; a Immortale Dei (1885), sobre a constituição cristã dos Estados; a Libertas (1888), sobre a liberdade humana e a condenação das liberdades modernas; a Humanum Genus (1884), contra a maçonaria; e a Testem Benevolentiae (1899), contra o americanismo, de Leão XIII; a Pascendi Dominici Gregis e a Lamentabili, de São Pio X (1907), com o Juramento Antimodernista (1910); a Quas Primas, de Pio XI (1925), que proclamou solenemente o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei, e a Mortalium Animos (1928), do mesmo Pontífice, contra o falso ecumenismo; e a Humani Generis, de Pio XII (1950), que condenou os erros da "nova teologia" (nouvelle théologie), denunciada pelo padre Réginald Garrigou-Lagrange, O.P., a quem temos por maior teólogo do século XX. Todos eles nos advertiram, com clareza, do que estava por vir — e deu no que hoje temos. Por isso digo: conheçam a liturgia tradicional, a Missa de sempre, o Calvário na terra, em verdade; e ponderem as razões que levaram tantos sacerdotes e fiéis, ao longo das últimas décadas, a permanecerem fiéis à Tradição Católica, ou a voltarem a ela de todo o coração. Muitos sofreram muito por isso, perderam tudo e todos, até o bom nome que tinham; mas hoje são felizes, porque encontraram a verdadeira fé. Encontraram, na verdade, o Tesouro Escondido (cf. Mateus 13, 44).
Repito: a minha decisão não nasceu da revolta, do orgulho ou da desobediência. Nasceu de uma longa caminhada de oração, estudo, sofrimento, noites escuras e discernimento diante de Deus e da minha consciência. Foi a verdade que encontrei que libertou a minha consciência e me deu a paz que há muito procurava. A luz de Deus brilhou sobre as trevas do modernismo — pois é Ele quem abre os corações para atender à verdade, como abriu o coração de Lídia para acolher a pregação de Paulo (cf. Atos 16, 14).
Por fim, continuarei rezando por aqueles que hoje me julgam. Também peço as suas orações por mim. No fim, não seremos julgados pelos tribunais da opinião pública, mas pelo justo juízo de Nosso Senhor Jesus Cristo, diante de quem todos compareceremos na morte. Por isso, a exemplo do rei Davi — que, após o pecado do recenseamento do povo, foi interpelado pelo profeta Gade e posto diante de três castigos, à sua escolha: sete anos de fome sobre a terra, três meses de fuga diante dos inimigos ou três dias de peste (cf. II Samuel 24, 12-13), e respondeu: "Prefiro cair nas mãos do Senhor, cujas misericórdias são muitas, a cair nas mãos dos homens" (II Samuel 24, 14) —, também eu prefiro entregar-me ao juízo de Deus. E estou certo de que Ele terá misericórdia de mim, por intercessão de Sua Mãe, a Santíssima Virgem Maria.
Que os Sagrados Corações de Jesus e Maria nos conduzam à plenitude da verdade e da caridade.
Padre Antônio de Pádua Sousa
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"Transmiti aquilo que recebi": a história de Dom Lefebvre e o Concílio Vaticano II [Parte 3]


