7 de July de 2026 Artigo
5 min

48 anos sem Gustavo Corção, intelectual católico brasileiro

Conheça a trajetória de Gustavo Corção, engenheiro, escritor e fundador da Permanência. Saiba como foi sua conversão e atuação na defesa da Tradição Católica no Brasil.

Yago Portella

Yago Portella

Redação CDB


Gustavo Corção nasceu ainda no século XIX, em 17 de dezembro de 1896. Estudou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde se formou engenheiro. Posteriormente, lecionou na instituição que hoje é o Instituto Militar de Engenharia (IME), uma das mais prestigiadas do país.

Além de sua destacada atuação como engenheiro, desenvolveu um protótipo de órgão eletrônico e criou um novo modelo de teodolito, instrumento utilizado para a medição de ângulos na construção civil.

Caminho de conversão

Embora tenha nascido em uma família católica, Corção afastou-se da Igreja, atraído pelo materialismo histórico. Contudo, aos 43 anos, retornou ao catolicismo, em 1939.

Após ficar viúvo de sua primeira esposa, Corção passou a refletir sobre a brevidade da vida e a questionar o sentido da existência humana: por que e para que estamos aqui?

Foi nesse contexto que teve início seu processo de conversão. Duas influências foram decisivas nesse caminho de retorno à Santa Madre Igreja: a leitura das obras do britânico G. K. Chesterton e a convivência com os monges do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.

Relação com Jacques Maritain

Corção também manteve proximidade com Jacques Maritain, humanista francês cujas ideias influenciaram correntes de pensamento que posteriormente contribuiriam para a elaboração da Teologia da Libertação no Brasil. Maritain também desempenhou papel importante no processo que levou à aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, em 1948. Era casado com Raïssa Maritain, judia de nascimento, que exerceu profunda influência sobre sua vida e suas decisões.

Entretanto, já nos anos 1960, com a fé mais amadurecida, Corção afastou-se de Maritain e passou a criticar publicamente sua corrente de pensamento. Em sua avaliação, aquelas ideias abriam caminho para a penetração do modernismo no interior da Igreja.

Atuação nos anos 1960 e fundação da Editora Permanência

Ainda nessa década, em 1965, o escritor Manuel Bandeira indicou Corção ao Prêmio Nobel de Literatura por sua obra O Desconcerto do Mundo. Naquele período, o engenheiro e escritor católico gozava de grande prestígio intelectual, a ponto de Oswald de Andrade considerá-lo um novo Machado de Assis.

Durante algum tempo, Corção integrou a direção do Centro Dom Vital, importante núcleo de formação do pensamento católico brasileiro no século XX. No entanto, ao perceber que uma de suas principais lideranças, Alceu Amoroso Lima, aderia ao modernismo, decidiu afastar-se da instituição.

Após essa ruptura com aqueles que acreditava estarem conduzindo a Igreja por um caminho equivocado, Corção fundou um grupo próprio de estudos. Dessa iniciativa nasceu a Editora Permanência, fundada em 29 de setembro de 1968, Festa de São Miguel Arcanjo.

A missa nova de Paulo VI e Bugnini

Corção viveu a época em que os bispos estavam extinguindo a celebração da Missa de Sempre em nome da aplicação da missa nova de Paulo VI. Foi um período no qual ele tinha muita dificuldade de encontrar uma Missa Tridentina e, embora não quisesse assistir a missas celebradas no rito inventado pelo possivelmente maçom Monsenhor Annibale Bugnigi em parceria com pastores protestantes, acabou cedendo.

Ele tinha aquela mesma ideia que muitos têm hoje de buscar uma “missa nova bem-celebrada”. Contudo, quando a Instrução Geral do Missal Romano de 1969, promulgada por ordem do Papa Paulo VI, definiu a missa nova não como a renovação do sacrifício de Cristo que se faz pelo padre in persona Christi (na pessoa de Cristo), mas simplesmente como a reunião do povo de Deus na qual o sacerdote é meramente o presidente da ceia onde se celebra o memorial do Senhor, isso gerou muita confusão entre os católicos com maior grau de instrução.

No ano seguinte, o texto foi alterado após as críticas apresentadas pelos cardeais Ottaviani e Bacci, que eram contrários à missa nova por considerarem que ela se afastava demais do verdadeiro sentido da Missa e dos dogmas definidos no Concílio de Trento. A intenção por detrás da criação do Novus Ordo Missae, no entanto, parecia ter ficado escancarada.

A resistência francesa diante da crise conciliar

À medida que parte do clero se afastava da Tradição da Igreja e a Permanência procurava permanecer fiel ao Depósito da Fé, Corção e sua editora tornavam-se cada vez mais isolados daqueles que buscavam acompanhar as mudanças promovidas por Roma.

Nesse contexto, aproximou-se do intelectual francês Jean Madiran, autor da obra Direita e Esquerda, e passou a colaborar com a revista Itinéraires. É curioso notar que, ao mesmo tempo em que a França costuma ser apontada como um dos principais centros de difusão do modernismo na Igreja, também se tornou um dos maiores polos da resistência católica às transformações decorrentes do Concílio Vaticano II.

No início da década de 1970, Corção conheceu Dom Marcel Lefebvre. A partir de então, consolidou-se a relação entre a Permanência, Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, bispo de Campos, que, ao lado de Lefebvre, participaria da sagração episcopal dos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X em 1988.

Essa colaboração entre os três teve papel decisivo na preservação da Missa de Sempre no Brasil. Sem ela, talvez a liturgia tradicional não tivesse sobrevivido no país.

Gustavo Corção faleceu em 6 de julho de 1978, enquanto dormia, em sua residência no bairro do Cosme Velho, na cidade do Rio de Janeiro. Tinha 81 anos.

 

 

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