15 de July de 2026 Notícia
6 min

Vaticano excomungou padre brasileiro? Entenda o caso.

Diversos veículos noticiaram a suposta excomunhão do padre Françoá Costa nessa terça-feira (14). Mas o que realmente aconteceu? Descubra agora.

Yago Portella

Yago Portella

Redação CDB


O padre Françoá Costa é o capelão da Capela Santo Atanásio, em Brasília/DF. Conhecido no meio católico por sua defesa incondicional da Santa Igreja contra o modernismo, ele ganhou os holofotes da mídia secular após a Arquidiocese de Brasília declará-lo cismático e excomungado no último dia 10. Mas, afinal, o que aconteceu?

Segundo nota assinada pelo Cardeal Paulo Cezar Costa, Arcebispo Metropolitano de Brasília, as sanções decretadas pela Santa Sé contra a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) no último dia 2 atingem também o pe. Françoá e a Capela Santo Atanásio, em razão de seu apoio público à Fraternidade. 

Afinal, o que ocorreu?

No último dia 1º, a FSSPX sagrou quatro bispos em Écône, na Suíça, sem a anuência do Papa Leão XIV, conforme noticiado pelo Centro Dom Bosco (CDB). O ato se deu em uma Missa campal que contou com a participação de milhares de fiéis, padres e freiras do mundo todo – e o padre Françoá esteve lá.

No dia seguinte, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um decreto e uma nota explicativa afirmando que os bispos sagrados e sagrantes, bem como todos aqueles que aderem à FSSPX, incorrem no crime de cisma e estão excomungados.

Com base nesse decreto, Dom Paulo Cezar Costa publicou nota própria, citando nominalmente o pe. Françoá como excomungado e determinando que os fiéis não frequentem a Capela Santo Atanásio.

Qual a posição da FSSPX sobre a acusação de cisma?

É justamente aqui que está o centro da discussão.

A FSSPX rejeita completamente a acusação de cisma. Segundo ela, reconhece o Papa Leão XIV como legítimo Sucessor de São Pedro e Vigário de Cristo na Terra, reza por Sua Santidade em todas as Missas, menciona seu nome no Cânon Romano e lhe dirige cartas tratando-o sempre como pai e pastor da Igreja.

Ao mesmo tempo, sustenta que nenhum católico pode obedecer a ordens que contrariem a Fé recebida dos Apóstolos. Assim, afirma que, se Roma exige a aceitação de doutrinas incompatíveis com o ensinamento constante da Igreja, seu dever é resistir, permanecendo fiel à Tradição Católica.

É precisamente por essa razão que a Fraternidade afirma não estar em cisma com Roma, mas, pelo contrário, permanecer fiel a Roma Eterna.

Quem foi Santo Atanásio?

Para compreender a posição da FSSPX, é preciso recordar um dos episódios mais dramáticos da história da Igreja.

Santo Atanásio de Alexandria viveu no século IV, quando a heresia ariana se espalhou pelo mundo cristão. Propagada pelo padre Ário, ela negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Embora inicialmente condenada pela Igreja, a heresia acabou sendo abraçada por grande parte do episcopado. Estima-se que cerca de 80% dos bispos tenham aderido ao arianismo, provocando uma das maiores crises doutrinárias da história do Cristianismo.

Atanásio, porém, permaneceu firme na defesa da Fé Católica. Por isso, sofreu perseguições, calúnias, exílios sucessivos e chegou até mesmo a ser excomungado pelo Papa Libério, que, durante a crise, chegou até mesmo a assinr uma fórmula de fé ambígua – e, portanto, herética –, omitindo a clara profissão da divindade de Cristo. 

Em determinado momento, Santo Atanásio resumiu a situação com uma frase que atravessou os séculos:

"Eles têm os templos; nós temos a Fé."

Quase todas as igrejas se encontravam sob controle dos arianos. Os católicos fiéis eram obrigados a reunir-se fora delas para celebrar a Santa Missa, como no tempo das catacumbas.

Atanásio morreu sem ver o fim da crise. Contudo, poucos anos depois, a Igreja voltou a professar claramente a divindade de Cristo, o arianismo foi definitivamente condenado e o santo passou a ser reconhecido como um dos maiores defensores da ortodoxia católica. Ele foi, afinal, o eleito de Deus para que, mesmo em meio à apostasia generalizada do alto clero, a Sua promessa permanecesse firme como a rocha: “As portas do inferno jamais prevalecerão sobre a Minha Igreja” (Mt 16, 18).

O padre Françoá está realmente excomungado?

É justamente esse precedente histórico que leva a FSSPX e aqueles que a defendem, como o pe. Françoá, a rejeitarem a validade das sanções recebidas.

Muitos imaginam que toda decisão do Papa seja automaticamente infalível. Entretanto, a própria doutrina católica ensina que a infalibilidade pontifícia existe apenas quando o Romano Pontífice define solenemente uma verdade de Fé ou de moral a ser crida por toda a Igreja.

Uma declaração de excomunhão não pertence a essa categoria. Trata-se de uma pena canônica, sujeita, segundo a própria tradição jurídica da Igreja, à discussão quanto à sua justiça e validade.

Por isso, a Fraternidade sustenta que as sanções impostas por Roma são injustas e, consequentemente, inválidas. Desse modo, crê firmemente estar plenamente unida à Igreja Católica.

De onde surgiu a FSSPX?

Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Dom Marcel Lefebvre, a FSSPX sempre teve o objetivo declarado de defender a Fé Católica ante o avanço da heresia modernista na Igreja, evidenciado nas reformas pós-Concílio Vaticano II. Desde então, a Fraternidade só vê crescer o número de fiéis em suas capelas e de vocações em seus seminários ao longo dos anos. E todos o fazem por uma única razão: eles veem nas falas e atitudes dos papas da era pós-concílio uma flagrante e incontestável ruptura com todos os papas que os precederam, ao passo que encontram na FSSPX a Fé dos mártires e dos santos de todos os tempos.

Parece, no entanto, que, para Roma, tal posição de inabalável defesa da Verdade promovida pela FSSPX, que resulta na sua recusa em aceitar o Concílio Vaticano II por considerá-lo herético, faz dela a sua principal inimiga.

Assim, a Fraternidade aponta que, enquanto a Santa Sé a combate abertamente e a persegue com todas as suas forças, também recebe de braços abertos verdadeiros cismáticos (o patriarca “ortodoxo” de Constantinopla, Bartolomeu I), bem como hereges (a “bispa” anglicana Sarah Mullally) e pagãos (nos famosos encontros inter-religiosos que ocorrem desde João Paulo II). Além disso, raramente aplica sanções contra membros do clero envolvidos em escândalos litúrgicos e doutrinários.

Na visão da FSSPX, esse contraste evidencia que o verdadeiro motivo das sanções não seria um suposto desejo de romper com a Igreja, mas justamente sua recusa em aceitar as heresias do Concílio Vaticano II.

Afinal, trata-se de um cisma ou de inegociável defesa da Fé?

É por essa razão que a Fraternidade enxerga em Dom Marcel Lefebvre um novo Santo Atanásio: um bispo que preferiu suportar perseguições a abandonar aquilo que sempre foi ensinado pela Igreja. Afinal, como o próprio Lefebvre dizia: “Quando eu estiver diante do Senhor e Ele me perguntar: ‘Marcel, que fizeste de teu episcopado?’, não quero ouvir de Sua boca: ‘Tu contribuíste com os outros para destruir a Minha Igreja.”

Esta é, afinal, também a posição do pe. Françoá: não a de um cismático, mas, sim, de um sacerdote que permanece fiel à Fé que Roma sempre professou.

 

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