Em 1533, o heresiarca Martinho Lutero publicou um tratado chamado De Missa Privata et Unctione Sacerdotum (ou “Da Missa Privada e da Unção dos Sacerdotes” em português) no qual criticava dois pilares da Fé Católica: a Missa e o Sacerdócio, mais especificamente as Missas privadas (ou de recanto) e o sacramento da ordem (a unção sacerdotal). Mas chama a atenção um detalhe presente nesse tratado: o autor relata que foi Satanás quem o ajudou a concluir que a celebração da Missa era um “pecado”.
De acordo com o relato de Lutero, certa noite, conversando com o Diabo, este lhe recordou dos anos em que, sendo sacerdote católico, celebrara a Santa Missa, acusando-o de idolatria. Disse-lhe o demônio:
“Sabes que, durante 15 anos, quase diariamente celebraste a Missa de recanto? Pois que, se, com tais Missas, tivesses cometido puras idolatrias, e não tivesses adorado nem oferecido à adoração de outros o Corpo e o Sangue de Cristo, mas simplesmente pão e vinho?”
Diante disso, em vez de ignorar a provocação de Satanás, Lutero preferiu argumentar com ele – e, nesse momento, a batalha por sua alma já estava perdida, pois ninguém deve entrar em um debate com quem possui mais de 5 mil anos de conhecimento sobre como levar os homens ao inferno.
Lutero tenta argumentar com Satanás em vez de fugir
Lutero rebateu o demônio afirmando ter sido ordenado sacerdote e ter sempre celebrado a Missa em estrita obediência à Igreja. Mas o pai da mentira sempre apresentava objeções a cada um de seus contra-argumentos.
Uma hora, o Diabo acusou Lutero de, na época em que fora ordenado e que celebrava a Missa, não ter autêntica Fé em Cristo; depois, que a sua ordenação sacerdotal foi feita em contrariedade à vontade de Deus, pois – segundo o demônio – a Missa não poderia ser celebrada em privado, mas sempre deveria contar com a distribuição do Sacramento à comunidade.
Na sequência, Satanás disse que ele não havia anunciado Cristo nas Missas que celebrou privadamente e que transformara algo que, segundo o demônio, deveria ser um sacramento para todos os cristãos em um sacrifício oferecido a Deus, o que, em suas palavras, seria um absurdo.
Sem perceber que caíra na armadilha do Diabo, Lutero seguiu argumentando na esperança de vencê-lo no embate intelectual. Assim, diante das acusações de Satanás, ele declarou que, mesmo que tivesse alguma compreensão equivocada sobre a Santa Missa, sempre a celebrou na intenção de fazer aquilo que a Igreja faz e que, portanto, as consagrações por ele realizadas eram válidas. E esta resposta foi, de fato, esplêndida, pois é exatamente o que a Igreja sempre ensinou: independentemente da Fé do sacerdote, se ele realiza a consagração na intenção de fazer o que a Igreja faz, o milagre da transubstanciação (o pão e vinho se tornando o próprio Deus sobre o altar) efetivamente ocorre.
O Diabo convence Lutero
Mas o demônio, que é mais astuto que o homem, prosseguiu na discussão até que, em dado momento, rompeu a resistência de Lutero, que terminou por se convencer das objeções apresentadas por Satanás e acreditou que ele estava certo no que dizia.
Aqui alguém poderia se questionar: será que Lutero, tendo sido padre por 15 anos, não sabia que o Diabo é o pai da mentira e que não deve lhe dar ouvidos? Mas ele próprio responde a isso quando escreve:
“Não, queridos irmãos, não mente o demônio quando nos lança em face a más obras de nossa vida (...). Mas mente quando tanto me aperta que me faz desesperar, como Judas, que dizia: ‘Meu pecado é maior que a misericórdia de Deus’.”
Ou seja: Lutero julgava poder confiar plenamente na palavra de Satanás enquanto esta não o tivesse ainda levado ao desespero. Quer dizer, contanto que ele continuasse acreditando que Deus poderia perdoá-lo de seus pecados, isso seria um sinal de que o Diabo lhe estava dizendo a verdade.
A partir daí, Lutero, inflamado pelo ódio que o demônio lhe instou, passa a tecer uma série de ataques contra o Santo Sacrifício da Missa. E chega ao ponto de afirmar que preferia ter cometido um adultério/estupro (a palavra por ele utilizada descreve ambos os casos) ou mesmo um homicídio a ter celebrado a Missa uma única vez em sua vida:
“Celebrei muitas Missas. Quem dera que, durante esse tempo, eu tivesse cometido um homicídio ou raptado a mulher de outro.”
Qual Missa Lutero odiava?
É importante ressaltar que a Missa que Lutero celebrava – e que fora celebrada por 14 séculos antes dele –, a qual o Diabo o convenceu a odiar e combater, era a Missa no rito que hoje chamamos Tridentino – não porque tenha sido criado no Concílio de Trento, mas porque foi normatizado como sendo o Rito Romano por excelência para todo o sempre, conforme explicamos aqui e cuja bula você confere aqui. E por que é mister que se faça tal ponderação?
Isso se deve ao fato de que a missa que hoje se celebra na maior parte das paróquias – chamada Novus Ordo Missæ ou “missa nova” –, diferentemente do desenvolvimento natural que teve o Rito Tridentino ao longo de toda a história da Igreja, foi criada por um maçom em conjunto com protestantes a pedido do Papa Paulo VI e teve por objetivo se afastar do caráter sacrifical de Trento e se aproximar da ceia luterana para agradar aos hereges, conforme dito pelo seu próprio autor, Monsenhor Annibale Bugnini.
Afinal, o que é a Missa?
A Missa é um sacrifício propiciatório, ou seja, ela existe para aplacar a ira divina, obter-nos o perdão dos pecados e nos reconciliar com Deus. Quando Cristo diz: “Fazei isto em memória de Mim” (Passagem), o Memorial (do grego Anamnese) de Sua Paixão não se trata de mera recordação, mas, conforme o pensamento bíblico e a doutrina católica ensinam, trata-se de trazer o passado para o presente.
Desse modo, a Missa não é um momento para recordarmos o Calvário, tampouco o padre está imolando novamente Nosso Senhor. O que, portanto, de fato ocorre sobre o altar é o oferecimento de modo incruento (sem derramamento de sangue) do mesmo sacrifício do Gólgota – não um novo, não uma lembrança, mas o mesmo.
Com isso, os frutos e os méritos do único sacrifício feito de uma vez por todas por Nosso Senhor Jesus Cristo sobre o lenho da Cruz se tornam atuais, alcançando a nós que não éramos ainda nascidos quando Ele derramou todo o Seu preciosíssimo sangue no madeiro para nos redimir e, assim, nos salvar.
Portanto, quando vamos à Missa, vamos, em verdade, ao mesmo Calvário em que a Santíssima Virgem Maria viu seu único Filho ser humilhado e morto 2 mil anos atrás. E, ao olharmos para o sacerdote, aquilo que nossos olhos não são capazes de contemplar é que ali está não um simples homem, mas – uma vez que o sacerdócio do qual o padre é revestido se trata do sacerdócio definitivo de Cristo – trata-se do próprio Cristo, o Sumo Sacerdote Iminente, o qual oferece a Si próprio ao Pai para que nós sejamos partícipes dos frutos e méritos do Seu único e definitivo sacrifício na Cruz.
Veja também:
Por que não devemos interpretar a Bíblia sozinhos?
Você sabe quais são as principais fontes da revelação divina?


