2 de October de 2026 Artigo
6 min

Por que não devemos interpretar a Bíblia sozinhos?

Você já parou para refletir sobre o porquê de a Igreja Católica ser contra a livre interpretação das Sagradas Escrituras? Então leia este artigo e entenda isso.

Yago Portella

Yago Portella

Redação CDB


Você já parou para refletir sobre o porquê de a Igreja Católica ser contra a livre interpretação das Sagradas Escrituras? Será que é para "controlar" as pessoas ou há uma razão mais profunda para isso?

Veja, você já pensou o que teria acontecido com o cristianismo se não houvesse o Magistério católico? Aquele mesmo que arroga para si o direito – e o dever! – exclusivo de dar a reta interpretação das Sagradas Escrituras. E já pensou em como seria um mundo onde não houvesse nem a Tradição oral, nem a interpretação dos Apóstolos e de seus sucessores da Doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Pense que, nesse mundo, tudo dependeria da interpretação pessoal de cada um que tivesse contato com a Bíblia. O que você acha que teria acontecido?

Em primeiro lugar, sequer haveria Bíblia. Isso porque, em um mundo onde não houvesse um Magistério munido de autoridade divina para discernir quais livros foram inspirados por Deus e que, portanto, devem compor o cânon bíblico, cada um acreditaria ou recusaria crer nos escritos com os quais tivesse contato e achasse que deveria crer – mais ou menos como ocorre hoje com o sincretismo brasileiro que mistura elementos de cristianismo, espiritismo e sabe-se lá o que mais.

E isso não é nenhum exagero: como vimos no artigo de ontem, que você confere aqui, para cada Apóstolo foi atribuída a autoria de um suposto evangelho. Porém sabemos que apenas quatro foram reconhecidos como divinamente inspirados – sendo que, destes, apenas dois foram escritos por Apóstolos –, enquanto os demais foram classificados como apócrifos. Para isso, todavia, os bispos analisaram quais livros do Novo Testamento eram aceitos pela maior parte das igrejas locais espalhadas pelo Império Romano e, portanto, estavam de acordo com a Tradição. Mas quem arrogaria para si tal autoridade se não houvesse Magistério?

Pois bem, além de não haver a possibilidade da existência de uma Bíblia – cujos livros, vale lembrar, foram sendo escritos ao longo dos anos, enquanto o Evangelho já era pregado oralmente –, imagine como ficaria a unidade da Fé sem um Magistério. Já pensou nisso?

Pense: em um mundo onde não houvesse uma autoridade capaz de dar o reto entendimento acerca dos ensinamentos de Cristo – fossem aqueles transmitidos oralmente ou, a posteriori, por escrito –, como se perpetuaria a reta interpretação das palavras de Nosso Senhor?

Ora, o cristianismo seria uma babel, e não um Pentecostes. Quero dizer: se cada um arrogasse para si a capacidade de interpretar os ensinamentos dos Santos Apóstolos como bem entendesse, a Verdade se perderia, pois cada um interpretaria a Doutrina de um modo distinto. Nós já vemos provas disso nas inúmeras seitas heréticas que se multiplicam a cada esquina, pregando sandices como “teologia da prosperidade” e “predestinação”, ou que mulheres não podem se depilar e nem cortar os cabelos, ou ainda que Deus proíbe a doação de sangue. Mas no mundo romano, quando ainda não havia a imprensa – e, portanto, mesmo após ser compilada a Bíblia, era impossível que todos os fiéis tivessem uma cópia dela, pois tal deveria ser feita manualmente, decorrendo, assim, a Doutrina, em sua maioria, do ensino oral –, pense nas consequências disso sem que houvesse alguém munido de autoridade para dar a reta interpretação acerca de cada passagem da Sagrada Escritura.

Mesmo havendo Magistério, não faltaram interpretações errôneas acerca da revelação divina ao longo da História, o que levou ao surgimento de diversas heresias, sendo um dos maiores exemplos delas o arianismo, no século IV, que negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa heresia se perpetuou por décadas e, não fosse a promessa de Nosso Senhor que consta no capítulo 16 do Evangelho segundo São Mateus de que as portas do inferno jamais prevalecerão sobre a Igreja Católica, muito provavelmente a Fé teria se perdido para sempre. Mas o Magistério, após décadas de confusão, finalmente conseguiu expurgar o arianismo de seu seio, embora os arianos tenham formado uma espécie de “igreja paralela” e levado o seu falso evangelho aos pagãos antes mesmo dos católicos.

Assim vemos nitidamente que foi o Magistério o instrumento escolhido por Deus para sustentar – guardando e propagando – a Verdade que nos foi revelada por Ele. Sem o Magistério, provavelmente o cristianismo teria se diluído em inúmeras seitas heréticas já no primeiro século e seria absorvido pelo panteão romano.

Por isso é loucura pensar que os fiéis podem interpretar sozinhos as Sagradas Escrituras e julgar que o seu entendimento é o correto. Por quê?

Ora, o Magistério católico guarda a Sã Doutrina e a transmite de forma incorrupta desde que a recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa. Os bispos são ensinados e sagrados por outros bispos, que passaram pelo mesmo processo e, assim, sucessivamente até chegar nos Santos Apóstolos, que foram escolhidos e ensinados pelo próprio Cristo. Não obstante, há uma Tradição de dois mil anos a qual eles não podem atropelar, mas pela qual devem zelar, pois são seus guardiões. Assim, mesmo que haja bispos – até mesmo em Roma! – que, por vezes, ensinem o erro, devemos olhar para aquilo que foi crido sempre, por todos e em todo lugar, como ensina São Vicente de Lèrins. E essa Fé é aquela que foi guardada e propagada justamente pelos santos, doutores, papas e demais bispos ao longo da História.

Mas se até bispos erram, inclusive papas – sendo que eles receberam autoridade de Deus para interpretar e ensinar a Sã Doutrina –, o que dizer de nós, meros leigos?

O mundo moderno está infectado pelo espírito da expressão “cada um tem a sua verdade”. Não tem. E isso porque a minha interpretação sobre algo pode diferir da sua, de modo que necessariamente um de nós – ou ambos – tem que estar errado. Ora, ou Cristo é Deus, como defendiam os católicos com base na Tradição e na Sagrada Escritura durante a crise ariana, ou Ele é simplesmente uma criatura, como afirmavam os arianos segundo a sua própria interpretação. Não há um mundo onde ambas as ideias possam coexistir: uma delas tem que ser extinta para que a única Verdade prevaleça.

Não há, portanto, “minha verdade” e “sua verdade”, mas somente a Verdade: Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, fez-Se homem, nasceu da Santíssima, Imaculada e sempre Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, resgatou Adão e os demais justos, ressuscitou em corpo e alma ao terceiro dia, subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso e de novo há de vir, em glória, e julgará os vivos e os mortos. E a Sua Esposa é a Santa Igreja Católica, detentora da autoridade que Ele próprio lhe confiou para conduzir o Seu rebanho ao Céu, ensinado a Verdade a todas as nações e batizando-as em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Viva Cristo Rei! Viva Nossa Senhora! E viva a Santa Igreja Católica!

 

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