14 de September de 2026 Notícia
9 min

Dom Athanasius afirma: concílios ecumênicos podem errar

Em entrevista recente, o bispo Dom Athanasius Schneider afirmou que a história prova que concílios ecumênicos erram, defendeu a FSSPX e criticou a missa nova.

Yago Portella

Yago Portella

Redação CDB


Em recente entrevista, o bispo Dom Athanasius Schneider, da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, no Cazaquistão, comentou sobre o paralelo entre a situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) e o grande bispo de Alexandria e herói da ortodoxia católica no século IV, Santo Atanásio. Ele também falou a respeito de erros que podem ser proferidos em concílios, citando Florença, além de apontar graves problemas da missa de Paulo VI que levantam o questionamento: será que ela deveria continuar existindo? A entrevista foi publicada pelo portal AdVaticanum no último dia 2.

Ao comentar sobre o paralelo entre Santo Atanásio e a FSSPX, Dom Athanasius, que leva o nome do santo, afirmou que o grande ponto de convergência entre ambos reside no fato de que, assim como o bispo de Alexandria, ao ser declarado excomungado por Libério (o papa da época) por se recusar a entrar em comunhão com bispos hereges, continuou a governar a sua diocese, considerando inválida a excomunhão proferida pelo Romano Pontífice, também a FSSPX, por considerar inválida a excomunhão que a Santa Sé lhe impôs, segue com seu trabalho em prol da Igreja. E disse que a desobediência de Santo Atanásio foi ainda mais grave do que a da FSSPX – e mesmo assim ele estava certo em desobedecer, como a História comprovou:

“Tendo sido excomungado, ele desconsiderou a excomunhão papal e continuou a governar sua diocese. Isso vai além da simples ordenação de um bispo. Ele exerceu, como bispo excomungado, plena jurisdição sobre sua diocese e até mesmo sobre suas sedes metropolitanas — não apenas celebrando os sacramentos, mas exercendo plena jurisdição eclesiástica. Ele simplesmente desconsiderou a excomunhão de um Papa.”

O bispo cazaque relembrou, ainda, que, para a FSSPX, o dilema que se lhe impõe é o seguinte: ou obedece ao papa e abandona a Fé Católica, ou desobedece ao Santo Padre para permanecer fiel à Sã Doutrina ensinada pelos santos, doutores e papas ao longo de 1900 anos:

“De maneira semelhante (a Santo Atanásio), a Fraternidade São Pio X também está desconsiderando a excomunhão que lhe foi imposta em julho, por considerá-la injusta e inválida, uma vez que a impediria de continuar seu trabalho por amor à Igreja. E o mesmo ocorreu com Atanásio: ao desconsiderar a excomunhão do Papa Libério, ele disse, em essência: ‘Devo continuar a governar minha diocese e minha estrutura metropolitana no Egito por amor à Igreja’. Portanto, nesse aspecto, a situação é similar.”

Ele também disse que Santo Atanásio “foi excomungado por desobediência e por causar problemas na Igreja ao recusar a comunhão com bispos reconhecidos pelo Papa”:

“Se Atanásio tivesse obedecido ao Papa, teria comprometido sua consciência e a integridade da Fé, pois, de certo modo, teria reconhecido bispos, no mínimo, semi-heréticos. Isso ele não podia fazer.”

Um concílio ecumênico pode errar?

Sobre a extensão da infalibilidade magisterial, Dom Athanasius falou que mesmo concílios dogmáticos podem cometer erros em declarações não-dogmáticas, bem como explicou sobre a possibilidade de se corrigi-los, citando como exemplo o Concílio de Florença. A esse respeito, questionou o porquê de não se poder nem ao menos discutir as declarações do Concílio Vaticano II, que foi meramente pastoral, se até mesmo Florença, assumidamente dogmático, foi emendado séculos mais tarde justamente em alguns de seus posicionamentos não-dogmáticos.

Os pontos que ele cita do Concílio de Florença (1431-1438) são:

  1. A declaração não-dogmática de que a matéria do sacramento da ordem é a entrega dos cálices, e não a imposição de mãos – algo que contrariava a Tradição da Igreja e que foi corrigido apenas por Pio XII (papa de 1939-1958).
  2. A afirmação também não-dogmática de que qualquer pessoa não-batizada que morresse iria para o inferno – ponto esse que foi corrigido por Pio IX (papa de 1846-1878).

A esse respeito, declarou que, no passado, a Santa Sé era mais aberta a discussões sobre questões não dogmáticas do que hoje, o que possibilitou a correção do Concílio de Florença:

“A Santa Sé era mais tolerante naqueles séculos do que hoje. Atualmente, a Santa Sé proíbe a discussão, a correção ou a modificação de algumas declarações pastorais e doutrinais — liberdade religiosa, ecumenismo, colegialidade: esses dois ou três pontos que são pertinentes à Fraternidade São Pio X. Você simplesmente precisa aceitá-los; fazer algum esforço intelectual, alguma ginástica mental, e então tudo fica bem. Isso não é honesto.”

A "hermenêutica da continuidade" já foi condenada por um papa e por um concílio

Na sequência, o bispo tratou, ainda, da condenação histórica à tentativa do Papa João IV de aplicar o que hoje chamaríamos de “hermenêutica da continuidade”. Dom Athanasius explicou que, no século VII, o Papa Honório, no uso de seu magistério autêntico, escreveu cartas ao Patriarca de Constantinopla para tratar sobre a Cristologia. Ocorre, porém, que tais cartas, embora não abertamente heréticas, eram tão ambíguas que serviram de combustível para que, citando as palavras do Santo Padre, os hereges do Oriente pudessem disseminar ainda mais as suas heresias.

O seu sucessor quase imediato, João IV (houve um papa entre eles, mas que durou apenas alguns meses no cargo), tentou salvar o conteúdo das cartas de Honório aplicando o método que, em nosso tempo, Bento XVI desejou que se aplicasse ao Concílio Vaticano II, que é a hermenêutica da continuidade (olhar para as ambiguidades de um papa/concílio e fazer um esforço mental para tentar interpretá-las de modo ortodoxo). Contudo, o Terceiro Concílio de Constantinopla rechaçou a hermenêutica de João IV e o condenou por isso – não porque se tratasse de heresia aberta, mas por conta justamente da ambiguidade no ensinamento de Honório. E o Papa São Leão II, que confirmou o concílio, ratificou a condenação de João IV.

Com base nisso, Dom Athanasius defendeu que:

“Não podemos continuar com os textos ambíguos do Vaticano II. Devemos corrigi-los para que sejam cristalinos em relação ao ecumenismo e à liberdade religiosa, sem qualquer incentivo para interpretações ambíguas — que já ocorreram ao longo destas seis décadas, destes sessenta anos. Agora temos os frutos desses textos ambíguos em um ecumenismo equivocado, em um sistema de diálogo religioso falho, que é basicamente relativismo, minando a única verdade e a única religião verdadeira, que é a Igreja Católica fundada por Deus.”

Ainda sobre o Concílio Vaticano II e seus frutos, o bispo cazaque afirmou que, na maioria dos seminários atuais, o entendimento dos seminaristas é de que todos os que se dizem cristãos, mesmo que não estejam na Igreja, serão salvos sem que se convertam à Fé verdadeira:

“Quando você visita os seminários e faculdades de teologia dos últimos sessenta anos, quando conversa com eles agora e pergunta, a maioria dos padres e seminaristas do chamado Novus Ordo, nas atuais faculdades de teologia da Igreja Católica, dirá: ‘Sim, as diferentes comunidades cristãs estão todas caminhando para Deus, para Cristo, e podemos coexistir uns com os outros. Não é estritamente necessário se converter’. E isso se estende até mesmo aos não cristãos. Essa ideia está cada vez mais difundida, sendo ensinada nas faculdades e pregada por padres e até bispos.”

A missa nova deveria ser extinta?

Em outro ponto da entrevista, Dom Athanasius também comentou sobre o rito Novus Ordo (a “missa nova” de Paulo VI), dizendo que, quanto mais o estuda, mais se convence de que ele é terrivelmente ambíguo, minando a clareza da Fé – razão pela qual acredita que deva ser corrigido ou abolido:

“Não podemos dizer que o Novus Ordo — sua correção ou legitimidade, em outras palavras — não precise ser corrigido. Não podemos continuar com um rito litúrgico tão ambíguo, que mina a clareza do caráter sacrificial da Missa. Agora estou mais consciente disso. E, portanto, posso compreender melhor a FSSPX, que não consegue subscrever essas declarações do Concílio e a bondade ou correção da Nova Missa.”

Dom Athanasius foi o visitador apostólico nomeado pelo Papa Francisco para conhecer de perto a FSSPX em 2016 e averiguar o que era ensinado em seus seminários. Desde então, tornou-se um ferrenho defensor da obra de Dom Marcel Lefebvre.

Tratando, ainda, da questão da missa nova, ele afirmou que, embora a FSSPX reconheça a sua validade – ou seja, que a transubstanciação, de fato, pode ocorrer ali –, por conta das ambiguidades e do modo como tal rito foi concebido, ela não pode reconhecer sua licitude – ou seja, que se trate de uma missa agradável a Deus.

Para o bispo, Roma não deveria tentar obrigar a FSSPX a agir contra a sua própria consciência e reconhecer o Novus Ordo como algo bom e agradável a Deus, e tampouco – retomando a questão dos erros conciliares – deveria tentar obrigar a FSSPX a reconhecer como estando em plena conformidade com a Tradição Católica os ensinamentos, no mínimo, ambíguos do Concílio Vaticano II:

“Tenho o texto que pede que reconheçam não apenas a validade da missa  nova e dos novos sacramentos, que eles já estão prontos para reconhecer. Imagine: a Santa Sé já deveria estar satisfeita com isso. Eu disse, então, na minha época, à Santa Sé: ‘Por favor, contentem-se quando eles estiverem prontos para reconhecer a validade’. Mas a Santa Sé não se contentou com isso. Eles prosseguiram com uma abordagem maximalista e queriam mais da FSSPX. Eu lhes disse: ‘Por favor, adotem a abordagem minimalista, por razões pastorais e históricas’.

A Fraternidade não aceitou a proposta de que se deve reconhecer a bondade, a legitimidade e a correção da Missa — e não apenas a sua validade. E também que, em termos globais, os ensinamentos do Vaticano II fazem parte da Tradição da Igreja.”

A entrevista completa você encontra no site do AdVaticanum, listado acima.

Caro leitos, a história nos mostra como os papas – e mesmo os concílios – podem errar. Por isso, antes de abraçar e defender com todas as suas forças qualquer opinião emitida pelo Romano Pontífice ou declaração feita pelo Concílio Vaticano II, estude sobre o tema e tente descobrir o que a Igreja sempre ensinou, desde São Pedro até um dia antes do concílio, a respeito daquele tema. E, em vez de realizar malabarismos mentais e hermenêuticos para tentar “salvar” declarações e ensinamentos de papas ou desse último concílio que possam suscitar dúvidas em relação à Fé, considere simplesmente admitir que papas e concílios erram e, assim, permanecer, de consciência tranquila, em comunhão com aquilo que foi crido sempre, por todos e em todo lugar, como ensinou São Vicente de Lérins.

Que Deus traga de volta a clareza doutrinal à Cátedra de Pedro, converta os nossos corações e venha logo em socorro de Sua Santa Igreja Católica.

Viva Cristo Rei! Viva Nossa Senhora Corredentora do Gênero Humano e Medianeira de Todas as Graças! E viva a Santa Igreja Católica!

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