Em discurso proferido nessa quarta-feira (07), o Cardeal Raymond Burke reafirmou o ensinamento perene da Igreja acerca do papel único de Nossa Senhora na redenção do gênero humano, reafirmando o seu título de Corredentora. E defendeu ainda o seu papel como Medianeira de Todas as Graças. A fala abriu a conferência "O Mistério de Maria no Dogma e no Magistério", realizado em Roma entre ontem e hoje pelo Pontifício Instituto Patrístico Augustinianum.
Ainda que não cite nominalmente o Papa Leão XIV ou o Cardeal Fernández e seu Dicastério para a Doutrina da “Fé”, Burke contraria frontalmente o documento Mater Populi Fidelis, lançado por esse mesmo dicastério em 2025. Na ocasião, o Vaticano recomendou a omissão dos títulos de “Corredentora” e “Medianeira” à Santíssima Mãe de Deus, em um ataque sem precedentes à honra de Nossa Senhora vindo da cúria romana.
Sobre a corredenção de Maria, Burke explicou:
“Por mais de quinhentos anos, o termo ‘Corredentora’ tem sido usado para expressar a ideia de que Maria, embora não seja igual a Jesus, mas uma criatura totalmente dependente d'Ele, secundária e subordinada a Ele, estava, no entanto, unida a Ele e participou da oferta d'Ele ao Pai para a nossa salvação no Calvário.”
Sobre a atuação da Virgem Santíssima enquanto Medianeira de Todas as Graças, afirmou o cardeal:
“A mediação da graça por Nossa Senhora deriva de seu papel como Corredentora. (…) Ela é Mediadora juntamente com seu divino Filho, o Mediador, como havia sido ensinado muito claramente pelos Papas dos séculos XIX e XX, bem como pelos Papas pós-conciliares.”
O desenvolvimento da Mariologia
Burke ainda comentou que a razão por detrás da demora da Igreja em aprofundar o entendimento acerca do papel de Nossa Senhora na salvação dos homens (o estudo sobre Maria é chamado de Mariologia) se deu em função de que os Padres da Igreja e os primeiros concílios tinham uma questão mais urgente a ser defendida e aprofundada primeiro: a identidade de Cristo, o que inclui, por exemplo, a Sua divindade e as Suas duas naturezas (humana e divina).
Apesar disso, lembrou que desde o princípio a Igreja sempre afirmou o papel de Nossa Senhora na obra de redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, citando Santo Irineu, bispo de Lyon – o qual foi discípulo de São Policarpo, bispo de Esmirna, que, por sua vez, foi discípulo do Apóstolo São João –, em sua obra Adversus Hæreses (Contra os Heresias):
“(Santo Irineu) compreendia o valor do consentimento de Maria no momento da Anunciação, reconhecendo na obediência e fé da Virgem de Nazaré na mensagem do anjo a antítese perfeita da desobediência e incredulidade de Eva, com um efeito benéfico sobre o destino da humanidade. De fato, assim como Eva causou a morte, Maria, com seu ‘sim’, tornou-se a ‘causa da salvação’ para si mesma e para todos os homens.”
A corredenção de Maria
Embora, porém, Santo Irineu já trouxesse tal elucidação no século II, Burke pontua que é somente no século X, pelo motivo já mencionado, que essa doutrina é sistematicamente elaborada, na obra “Vida de Maria”, do monge bizantino João, o Geômetra. Nela, o monge afirma que “Maria se une a Cristo em toda a obra redentora, participando, segundo o plano divino, da Cruz e sofrendo por nossa salvação. Ela permaneceu unida a seu Filho ‘em cada ação, atitude e vontade’.”
O cardeal menciona, ainda, um dos homens mais importantes de seu tempo, o Doutor da Igreja São Bernardo de Claraval, falecido em 1153 e canonizado em 1174. O santo – que, dentre seus feitos, teve papel decisivo na oficialização da Ordem dos Templários pelo Papa Honório II – aborda, em seu Sermão 3 para a Festa da Purificação da Bem-Aventurada Virgem Maria, a sua oferta do Filho ao Pai como Vítima Expiatória por nossos pecados:
“Oferece o teu Filho, ó Virgem Santa, e apresenta ao Senhor o fruto bendito do teu ventre. Oferece para a nossa reconciliação esta Hóstia santa e agradável a Deus.” (Sermo 3 de Purificatione Beatæ Mariæ)
E, também sobre esse ponto específico, Burke cita o monge beneditino Arnold de Chartres, amigo de São Bernardo, que, em sua obra De septem verbis Domini in cruce (Das sete palavras do Senhor na cruz), “destaca, em particular, a oferta de Maria no sacrifício do Calvário”:
“Ele distingue na Cruz ‘dois altares: um no coração de Maria, o outro no corpo de Cristo. Cristo sacrificou a Sua carne; Maria, a sua alma’. Maria sacrifica-se espiritualmente em profunda comunhão com Cristo e intercede pela salvação do mundo: ‘O que a mãe pede, o Filho aprova e o Pai dá.’”
Em seu discurso, o cardeal ainda mencionou o Papa João Paulo II, afirmando que:
“O uso do termo ‘Corredentora’ não acrescenta nada de novo ao ensinamento da Igreja, mas antes desenvolve coerentemente a expressão daquilo que a Igreja sempre ensinou.”
A mediação e corredenção são inseparáveis da maternidade mariana
Burke também explicou que “o papel de Nossa Senhora como Corredentora e Medianeira de todas as graças deriva de sua natureza como nossa Mãe espiritual, a quem nos consagramos para pertencermos cada vez mais plenamente a Jesus”. E recordou que São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), um dos “maiores mestres modernos da consagração mariana”, baseia “seus ensinamentos sobre a consagração a Maria explicitamente na mediação das graças da Redenção que Maria exerce em nosso favor”.
“Viver em união com Maria é fundamental para crescer no conhecimento e no amor a Jesus. Ela nunca nos atrai para si por si mesma, mas sempre para nos conduzir cada vez mais perto de Jesus.”
E recordou a oração feita pelo santo, presente em seu “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”:
“Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio te in mea omnia. Præbe mihi cor tuum, Maria.”
Isto é:
“Sou todo teu, e tudo o que é meu é teu. Recebo-te como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso Coração, ó Maria.”
A corredenção de Nossa Senhora está na Bíblia
Mais adiante, o cardeal menciona a presença da corredenção de Nossa Senhora nas Sagradas Escrituras, mostrando como essa verdade de Fé já estava presente desde o livro do Gênesis, quando Deus diz a Satanás:
“Porei inimizade entre ti e a Mulher, e entre a tua descendência e a dela; este te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3, 15)
Esse foi o primeiro anúncio da salvação feito por Deus, e já nessa promessa consta a participação singular da Santíssima Virgem Maria na redenção do gênero humano: ela é a Mulher, a Nova Eva, e a sua descendência é Cristo, Deus Filho. E essa promessa é renovada pelo Senhor por meio da boca do profeta Isaías, que diz:
“Portanto, o próprio Senhor vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel (que significa Deus conosco).” (Is 7, 14)
Embora o maior foco dado por Burke em seu discurso seja à defesa da verdade acerca da corredenção de Nossa Senhora, considero válido pontuar sobre a sua mediação: como vemos no episódio das bodas de Caná, é somente por seu intermédio que Cristo opera o milagre que transforma água em vinho. Ou seja, é Maria a Medianeira que alcança àquele casal a graça desejada ao ir até o seu divino Filho. Se, portanto, Cristo é o único Mediador entre o Pai e os homens, Maria é a Medianeira entre nós e o Filho, fazendo com que Dele recebamos todas as graças, e principalmente a maior de todas elas, que é Ele próprio. Foi por ela que Jesus veio aos homens, e é somente por ela, a Virgem Porta do Céu, que nós vamos a Cristo.
Viva Cristo Rei! Viva Nossa Senhora Corredentora do Gênero Humano e Medianeira de Todas as Graças! E viva a Santa Igreja Católica!


