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Torne-se membro ->Você sabia que a Escócia – que entra em campo nesta quarta-feira (24) contra o Brasil pela Copa do Mundo 2026 – já foi católica? Convertida por São Nínio no final do século IV, conforme aponta a tradição cristã, a região – que, à época, ainda não tinha o nome de Escócia, a qual se formaria enquanto reino somente em 843 – viveu cerca de mil anos de catolicismo antes de cair na heresia protestante.
São Nínio chegou à porção norte da Britânia – a ilha hoje conhecida como Grã-Bretanha – por volta do ano 397. Naquele tempo, parte do território era administrado pelo Império Romano. O restante, porém, era habitado por diferentes reinos tribais que viviam em guerra entre si.
Um desses povos era composto pelos chamados pictos, e foi neles que São Nínio focou a sua evangelização. Estabelecendo-se em Whithorn, na região de Galloway, ali ele edificou aquela que ficou conhecida como primeira igreja de pedra da Escócia. O templo foi chamado de Candida Casa devido à sua cobertura de cal branco, que a fazia visível à distância.
A Primeira Cruzada
Séculos mais tarde, em 1097, o Rei Lagmann de Man e das Ilhas partiu rumo à Terra Santa para expiar os seus pecados. De origem viking, ele cegou e mutilou o seu irmão durante a disputa pelo trono oriunda da morte de seu pai em 1095.
Arrependido, porém, do que fizera, Lagmann abdicou do trono e, atendendo ao chamado do Papa Beato Urbano II (que você pode ler na coleção 250 Documentos Pontifícios, publicada pelo CDB), peregrinou na Primeira Cruzada como um combatente da Fé. Ele almejava, com isso, receber a indulgência plenária concedida àqueles que tentassem libertar Jerusalém do controle sarraceno.
O caminho era extremamente árduo, e o rei faleceu antes de pisar na Terra Santa. Contudo, a indulgência abrangia não apenas aqueles que chegassem a Jerusalém, mas todos os que partissem na expedição militar.
Hoje, parte do Reino de Langmann e das Ilhas é território escocês, enquanto outra parte é uma dependência autogovernada da Coroa Britânica – ou seja, ela pertence ao monarca britânico, mas não faz parte do Reino Unido.
A Cruzada do Coração de Bruce
No século XIV, o Rei Roberto I da Escócia, conhecido como Robert the Bruce, líder da independência escocesa frente à Inglaterra, jurou peregrinar à Terra Santa para lutar contra os inimigos de Cristo. Isso porque, em 1291, com a queda de Acre, os cristãos perderam o Reino de Jerusalém para os muçulmanos.
O rei, no entanto, foi acometido por uma grave doença que lhe impediu de cumprir o seu voto em vida. Assim, ordenou que, após a sua morte, seu coração fosse removido do corpo, embalsamado e levado a Jerusalém numa cruzada. Lá, ele deveria ser apresentado a Deus e sepultado na Igreja do Santo Sepulcro.
Atendendo ao último desejo de seu senhor, falecido em 1329, o cavaleiro Sir James Douglas partiu, já no ano seguinte, com um relicário de prata contendo o coração de Bruce. Contudo, enquanto viajava pela Europa, James se juntou às forças do jovem Rei Afonso XI de Castela, então com 19 anos de idade, o qual estava guerreando contra o islã pela Reconquista da Península Ibérica.
Vendo que se tratava de uma cruzada tão válida quanto a libertação da Terra Santa, James partiu com Afonso para o sul. O objetivo era claro: tomar o Castillo de la Estrella, uma fortaleza controlada pelos mouros e que marcava a fronteira entre o Reino de Castela e o Sultanato de Granada.
Durante aquela que ficou conhecida como a Batalha de Teba, travada em 25 de agosto de 1330, os escoceses, em dado momento, afastaram-se das tropas castelhanas para perseguir combatentes muçulmanos que simularam uma fuga. Aquilo, no entanto, foi uma armadilha, e os escoceses acabaram cercados pelos mouros.
Sem ter como recuar, Sir James avançou em uma carga de cavalaria final que culminou no extermínio de seus homens. Apesar disso, os cristãos venceram o confronto, reconquistando a região e expandindo a fronteira para o sul.
Após a batalha, os restos mortais do cavaleiro e o relicário de prata foram recuperados e enviados de volta ao Reino da Escócia. Sir James foi sepultado na Igreja de St. Bride, em South Lanarkshire, que até hoje permanece uma paróquia católica. Já o coração de Robert foi depositado na Abadia de Melrose, que, mais tarde, foi dessacralizada, tornando-se um ponto turístico – enquanto que seu corpo se encontra na Abadia de Dunfermline, a qual, mais tarde, foi transformada pelos hereges em uma paróquia presbiteriana.
Apostasia da Escócia
Apesar dos mil anos de catolicismo na região, em 1560, contaminado pela heresia protestante, o Parlamento Escocês declarou abolida a autoridade do Papa na Escócia. Não obstante, tornou ilegal a celebração da Santa Missa no reino, sob pena de castigos físicos e confisco de bens.
Na esteira de tais atos, a Abadia de Dunfermline foi saqueada e, mais tarde, transformada em uma paróquia presbiteriana. Já a Abadia de Melrose – primeiro mosteiro cisterciense, fundado em 1136 – foi dissolvida ainda em 1560, sendo finalmente abandonada por completo em 1590, quando da morte do último monge que ali residia.
Já no ano de 1581, o parlamento proibiu todas as peregrinações católicas em território escocês. Isto acabou estrangulando financeiramente a Candida Casa, a igreja mencionada no começo da matéria. Ficando sem monges e sem dinheiro, ela foi profanada pelos habitantes locais, que roubaram suas pedras. Desse modo, a lendária igreja acabou por desmoronar com o tempo. Por isso, hoje, naquele local restam apenas ruínas daquela que foi muito provavelmente a primeira igreja da Escócia.
Todos esses abusos só foram possíveis por conta da liderança do herege John Knox. Foi ele quem conduziu a apostasia da Escócia, fundando o presbiterianismo e convencendo o parlamento a perseguir a Igreja Católica no país.
As Relíquias de São Nínio
Diante desse cenário, monges, no intuito de preservar as relíquias de São Nínio das atrocidades dos protestantes, levaram-nas à França. Isto ocorreu porque os hereges consideravam a veneração das relíquias um ato de “idolatria”. A prática da veneração de relíquias de santos, porém, já era feita pelos cristãos desde o período apostólico, havendo, na época das catacumbas, até mesmo a celebração de Missas sobre elas.
De fato, por duzentos anos as relíquias ficaram preservadas em solo francês. Contudo, em 1789, outros inimigos de Deus e da Igreja surgiram: os revolucionários liberais. E, nesse contexto da revolução, tornou-se desconhecido o fim que tiveram as relíquias do primeiro santo a levar a luz do Evangelho à Escócia.
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