Quando “Os Lusíadas” se aproxima do final, a deusa Vênus os premia com o acesso à Ilha dos Amores. Mas, afinal, de que se trata essa tal ilha?
Presente nos cantos IX e X, a Ilha dos Amores é um local divino, de natureza exuberante, como um novo Éden mesmo. Ela é permeada por prados verdejantes, fontes de água cristalina, pomares e flores perfumadas.
Além disso, há, ali, uma farta e luxuosa mesa posta aos marinheiros, sobre a qual podem se deliciar comendo tudo o que há de melhor. E, nesse momento, uma ninfa – divindade mitológica da natureza – começa a entoar um cântico no qual profetiza as futuras batalhas, conquistas e governantes portugueses que hão de consolidar o Império Português no Oriente.
A Máquina do Mundo
Em outro momento, a deusa Tétis, tomando o explorador Vasco da Gama pela mão, leva-o, junto ao restante da tripulação, ao cume de uma alta montanha. Ali, ela lhes revela a Máquina do Mundo: uma representação perfeitamente simétrica do universo seguindo o modelo geocêntrico de Ptolomeu, com a Terra ao centro, cercada de corpos celestes, até chegar à habitação de Deus.
Ali, Tétis mostra aos heróis a localização de todos os futuros domínios portugueses: na África, na Ásia e na América, o nosso Brasil. Porém, ainda nesse desenrolar, ela faz uma revelação aos navegadores: nem ela, nem qualquer uma das divindades mitológicas que os acompanharam são reais. Todos eles não passam de ficções alegóricas, pois o único Deus Verdadeiro, sob cujo cetro tudo se dobra, é Nosso Senhor Jesus Cristo. E, com isso, temos a chave de entendimento que faz do episódio que deixei para o final deste artigo possivelmente o mais belo da Ilha dos Amores.
O simbolismo do encontro com as ninfas e a imortalidade
Por fim, convém dizer que a Ilha dos Amores é habitada não apenas por uma, mas diversas ninfas. E um dos prêmios que é dado aos heróis é justamente o amor delas. Porém, muito mais do que um ato meramente carnal – uma recompensa mundana –, o que decorre dessa união entre os marinheiros e as divindades é o encontro do homem com a imortalidade.
Veja, quando os portugueses que ali estão se deitam com as ninfas, o que ocorre é, sim, o merecido descanso físico após todas as tribulações que tiveram de enfrentar. Para além disso, todavia, aquele ato representa a própria eternização desses homens na História: para sempre eles serão lembrados e cantados por seus gloriosos feitos em nome de Deus e de sua nação.


