O ano era 1957. Uma menina de 11 anos, mais tarde chamada de “Agnes” em um livro não-autorizado sobre o seu trauma, teria sido estuprada em um ritual satânico pelo então padre Joseph Bernardin, o qual teria também profanado a Sagrada Eucarista. E tudo isso teria sido feito na presença do então Bispo de Chicago, Dom John Joyce Russell, que a crismara meses antes e que seria o responsável por celebrar o ritual.
Mais de vinte anos depois, em 2 de fevereiro de 1983, Bernardin seria criado cardeal pelo Papa João Paulo II e se tornaria um dos maiores promotores das reformas nascidas do Concílio Vaticano II. Hoje ele é elogiado por figuras da alta hierarquia da Igreja, incluindo o Papa Leão XIV, que, em 2023, quando era ainda o Cardeal Robert Prevost, Prefeito do Dicastério para os Bispos, afirmou que o seu compatriota tinha uma vida exemplar e uma visão plena da moral da Igreja.
Temendo que as recentes exaltações de Bernardin por parte de altas autoridades da Igreja possam conduzir à abertura de um processo de canonização, a possível vítima do cardeal veio a público para contar o que teria acontecido em 1957, e lamentou que não haja mais o Advogado do Diabo* nos processos de canonização para impedir que pessoas que jamais foram verdadeiramente santas cheguem aos altares.
*A figura do Advogado do Diabo era parte fundamental dos processos de canonização antes da reforma de João Paulo II de 25 de janeiro** de 1983. Até então, era o Advogado do Diabo quem investigava a vida do “candidato” a santo em busca de evidências de que ele não fosse tão virtuoso quanto se acreditava. Esse papel, porém, foi extinto por João Paulo II quando ele alterou completamente os novos processos de canonização, sendo esta uma das razões pelas quais eles já não mais gozam da mesma credibilidade de outrora, levantando dúvidas sobre se os novos “santos” ditos “canonizados” a partir de 1983 estão, de fato, no Céu.
**Coincidentemente ou não, 25 de janeiro é a mesma data em que, no ano de 1959, João XXIII anunciou ao mundo que realizaria um novo concílio: o Concílio Vaticano II. E é também a mesma data em que, exatos 21 anos antes, em 25 de janeiro de 1938, a grande aurora boreal que iluminou o céu da Europa inteira anunciou, conforme a revelação de Nossa Senhora em Fátima, o início da II Guerra Mundial como um castigo de Deus contra a humanidade. Cada um faça dessa informação o que bem entender. Prossigamos.
O que você lerá abaixo são os relatos do Padre David Nix e de “Agnes”. Pe. David, também conhecido na internet como Padre Peregrino, é um eremita da Diocese de Denver, nos EUA, que celebra os sete sacramentos apenas nos ritos tradicionais (especialmente a Santa Missa de Sempre). Ele também viaja o mundo para levar os sacramentos da Igreja às pessoas nos mais diversos continentes e combater o tráfico infantil e o aborto, segundo informações de seu site.
O texto que segue foi traduzido na íntegra do portal do Padre Peregrino:
Na semana passada, eu (Padre David Nix) jantei por quatro horas com a vítima de Bernardin e seu marido. Ela tem agora 80 anos. O Abuso Ritual Satânico que ela sofreu foi há cerca de 70 anos, cometido pelo Padre Joseph Bernardin (mais tarde Cardeal Arcebispo de Chicago). O abuso ocorreu na Igreja de Santa Maria em Greenville, Carolina do Sul.
Minha mãe é de Chicago (e meu pai é da região oeste de Chicago), então cresci ouvindo de outros familiares que um dia o Cardeal Bernardin seria canonizado. Muita coisa mudou na minha vida desde então. Outra coisa que mudou foi a recente tentativa de Roma de reabilitar a reputação de Bernardin.
Ao ler o texto abaixo, tenha em mente que ainda defendo meu artigo do início deste ano, que descreve a gravidade da quebra do 8º Mandamento HIPERLINK para a reputação pública de outra pessoa. Mas os pecados de figuras públicas devem ser expostos se houver provas. Repito: tenho 100% de certeza de que jantei na semana passada com a própria vítima de Bernardin de 1957. Ela agora quebra seu silêncio de anos devido às tentativas iminentes de se “canonizar” Bernardin.
A partir daqui, recomenda-se extrema cautela ao leitor. Mas prometo que o restante deste artigo, em itálico, contém apenas as palavras da vítima de Bernardin:
Meu nome é Agnes. Na verdade, não. Esse nome me foi atribuído por um escritor, Malachi Martin, que achou que minha história seria a explicação perfeita para as condições da Igreja que ele descreveu em seu romance. E sim, é a minha história. Ele usou muitos detalhes que eu lhe forneci, mas mudou a data. Acredito que ele fez isso para que a história se encaixasse melhor em seu objetivo de usá-la como estrutura para sua narrativa. Aconteceu em 1957, não no início dos anos 60. Aconteceu em Greenville, Carolina do Sul, e não sei nada sobre qualquer conexão com um ritual em Roma. Não vi nem ouvi telefones.
Fui encaminhada a Martin por um padre, o qual me disse que Martin era a fonte do Papa nos Estados Unidos e tinha bons contatos. Eu queria levar a informação sobre um cardeal ao Papa, pois somente o Papa tem jurisdição sobre um cardeal. Eu estava receosa de usar os canais oficiais.
Havia várias pessoas presentes naquela noite de outono de 1957. O aparente líder era alguém que até hoje desconheço, um homem que falava alemão. Além da natureza das atividades, suas rimas me fizeram perceber que o evento era um ritual satânico. Neste mês dos fiéis defuntos, eu rezo pela alma dele, assim como rezo por todas as pessoas que estavam lá naquela noite.
O celebrante era o Bispo Russell. Ele estava paramentado. Eu o admirava desde criança. Quando ele tentou me estuprar, eu o reconheci e o repreendi. Eu havia sido crismada por ele apenas alguns meses antes (isso aconteceu no outono de 1957 e eu fui crismada em fevereiro, se bem me lembro). Eu disse: “Você é o bispo! Você me crismou. Você não deveria fazer isso! Você deveria se comportar!” Ele permaneceu impassível, exceto por um rápido lampejo de alarme em seus olhos azuis, um alarme que vi novamente 40 anos depois, quando o visitei em seu asilo.
O bispo Russell vinha frequentemente à nossa paróquia e, com seus cabelos brancos e porte imponente, parecia um santinho impresso em papel. Eu achava que ele se parecia com Deus Pai. Quando ele vinha, o padre Bernardin sempre vinha também e estava sempre ao seu lado como mestre de cerimônias das Missas Pontifícias Solenes que eram frequentemente celebradas na paróquia.
Já descrevi o resto do que aconteceu naquela noite em outro lugar. Eu resisti e as pessoas presentes tentaram me convencer de que eu era má. Eu disse que Deus me criou e que Deus era bom, então eu era boa. Lembro-me de um telefonema de Martin, quando ele me disse que o Santo Padre queria saber algo pessoal sobre o ocorrido, como eu havia me sentido espiritualmente. Ingênua, contei-lhe essa história e ele a incluiu em seu romance. Jamais esquecerei a violação que senti ao ler como ele usou o que, para mim, era um momento sagrado (quando, pela graça da Confirmação, eu fui capaz de resistir e dizer algo verdadeiro) para tornar crível sua versão sensacionalista do ocorrido.
Depois disso, as pessoas ficaram muito zangadas. O plano delas, qualquer que fosse, não poderia dar certo. Elas precisavam reprimir a minha memória do acontecido. Uma maneira de fazer isso seria me fazer sentir cúmplice. O Padre Bernardin me pegou no colo e disse que eu tinha sido uma boa menina, que aquilo tinha sido um teste e que eu tinha me saído bem. Comecei a chorar e relaxei, deixando de lado minha resistência extrema.
Foi então que ele me estuprou e disse que estava pondo o diabo em mim, fazendo associações de palavras entre sêmen e demônio. Ele disse que, se o que ele fez comigo me fez sentir prazer, era porque o diabo estava em mim e isso significava que eu era má. Então ele fez algo sacrílego com o que ele disse ser uma Hóstia Consagrada e me forçou a engoli-la, o que eu fiz porque queria protegê-La, caso fosse de fato consagrada.
Depois disso, a luz diminuiu. Havia muita gente em movimento. Ofereceram-me algo para beber e não me lembro de mais nada. Quanto ao cachorro que Martin menciona, não havia nenhum cachorro lá. Malachi Martin me perguntou especificamente se eu tinha um animal de estimação. Eu lhe disse que tinha tido um cachorro que eu amava, mas que ele havia desaparecido, e me disseram que a culpa era minha.
Alguns anos depois, tivemos um novo vigário paroquial, o Padre Condon, que mais tarde foi julgado e condenado por vários casos de violência sexual qualificada contra menores (meninos, dos quais pelo menos um cometeu suicídio). Ele havia sido colega de quarto de Bernardin, conforme descobri muito tempo depois, e começou a dar palestras explícitas sobre educação sexual para a nossa turma mista. Em um ou dois meses, os meninos da nossa turma, meninos que eu conhecia desde a 2ª série, mudaram consideravelmente, ficando obcecados por piadas e gestos homossexuais.
Russell foi transferido, Bernardin não voltou, e minha família se mudou para a região de Washington, D.C. Eu não pensei mais em Bernardin até 1983. Quando morei no Centro-Oeste, eu fiquei sabendo que um Ber-NAR-Din havia sido nomeado Arcebispo de Chicago, mas não fiz a conexão porque o nome dele foi pronunciado incorretamente. Mas depois que eu voltei do exterior para os Estados Unidos, quatro anos mais tarde, percebi quem ele era e comecei a jornada para tentar fazê-lo ser parado e punido pela Igreja.
Onde há uma vítima dessas, há muitas. Eu escrevi uma carta pessoal a Bernardin pedindo para que ele se arrependesse publicamente. Eu disse a ele que Deus havia lhe dado aquele Tempo Sagrado (Quaresma e Semana Santa) para se manifestar. Ele entregou a carta ao seu conselho de revisão, e eles queriam que eu cooperasse com um processo completamente ilegal deles. Eu lhes disse que não, que eles não tinham jurisdição, então inventaram algumas novas regras envolvendo outros bispos. Bernardin morreu antes de outra Semana Santa.
Busquei diversas formas de denúncia e exposição, arriscando minha segurança e a da minha família. Durante anos eu não consegui contratar um advogado, algo que qualquer pessoa precisaria para lidar com os constantes contra-processos movidos pela Arquidiocese de Chicago. Apresentei um parecer de amicus curiæ no caso de Steve Cook. Eu não queria processar, pois não desejava nem mesmo a aparência de ganhos financeiros. Pouco tempo depois, Cook retirou o processo dele. Ele me disse que se lembrava perfeitamente bem, mas que havia decidido acreditar nos olhos de Bernardin em vez de suas próprias memórias. Eu disse: “Steve, ele usou esses mesmos olhos em mim quando eu tinha 11 anos!” Ele respondeu: “Eu detestaria pensar que fui enganado duas vezes.” Pense no que isso significa.
No fim das contas, meu marido e eu visitamos a Congregação dos Bispos. Enquanto estávamos no Vaticano, fui me confessar, uma confissão em nada relacionada a esses eventos. O padre me disse para ir para casa, para esquecer o motivo pelo qual eu fora até lá, para voltar e ser uma dona de casa silenciosa. Eu fiquei chocada. O meu marido trabalhava na polícia e sabia o que aquelas palavras significavam.
Quando Bernardin deu uma coletiva de imprensa sobre Cook, na verdade ele falou sobre as minhas acusações, rindo delas. Steve Cook me contou que Bernardin mentiu sobre ele ter se reconciliado com a Igreja. Cook disse que ele tinha se reconciliado com Bernardin, mas não com a Igreja. Cook também me falou que ele estava escrevendo um livro sobre as suas experiências. Onde está esse livro?
Malachi Martin prometeu levar meu testemunho diretamente a João Paulo II (o que eu presumi que ele já tivesse feito quando me transmitiu a pergunta do Papa). Ele pediu permissão para mencionar minha história em correlação com “uma coisinha” que ele queria publicar, porque achava que isso ajudaria as pessoas a entenderem a situação na Igreja. Eu pensei que ele estivesse se referindo a um artigo ou carta para o New York Times e que ele iria apenas mencionar uma alegação confiável. Eu não fazia ideia de seu plano.
Ao longo dos anos, tenho mantido minha identidade em segredo pelo bem da minha família. Um advogado finalmente concordou em me representar, mas me disse que, se eu viesse a público, a vida de toda a minha família seria destruída. Àquela altura, todos que precisavam saber já haviam sido informados, então não havia razão em ir a público. Eu não preciso de publicidade. Agradeço aos jornalistas que honraram o meu sigilo e peço que continuem a fazê-lo.
Eu escrevo isto agora porque ouvi dizer que há um movimento renovado para canonizar Joseph Bernardin. Quem dera a Deus ainda tivéssemos um Advogado do Diabo no processo de canonização.
Eu tenho cópias de toda a correspondência e anotações da maioria das conversas.


